COMUNIDADE ORTODOXA SANTA CATARINA DE ALEXANDRIA
IGREJA SIRIAN ORTODOXA DE ANTIOQUIA MISSIONÁRIA DO BRASIL

IGREJA SIRIAN  ORTODOXA DE ANTIOQUIA

 “MISSIONÁRIA DO BRASIL”

EPARQUIA ORTODOXA DE GOIÂNIA

* * * DIOCESE DOS ESTADOS DE GOIÁS E TOCANTINS * * *

PROCESSO DE APERFEIÇOAMENTO NA DOUTRINA CRISTÃ ORTODOXA - PADCO

1º FASCÍCULO:

ORIGENS DOS SEMINÁRIOS, UNIVERSIDADES E DO CLERO.

JAN/2009

PE. ROBERTO DEMÉTRIO DA SILVA SOUZA

 SACERDOTE ORTODOXO

* * * (Com Aprovação Eclesiástica) * * *

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

PARTE I

BASE HISTÓRICO-CULTURAL DA CRIAÇÃO DOS SEMINÁRIOS

CAPÍTULO I

A FORMAÇÃO DO CLERO NO OCIDENTE E NO ORIENTE

1. A FORMAÇÃO DOS CANDIDATOS VOCACIONADOS

1.1. À Sombra dos Presbitérios

1.2. Seminaristas Sirian Ortodoxos em Atenas

1.3. O Celibato Eclesiástico1.4. A Tonsura Clerical

2. O ESPLENDOR PATRÍSTICO

3. “CURVA TUA FRONTE, SICAMBRO ALTIVO!”

4. A ILHA DOS SANTOS

4.1. A Irlanda

4.2. Processo de Canonizações nas Igrejas Primitivas

5. O ÚLTIMO DOS PADRES ORIENTAIS

CAPÍTULO II

OS GRANDES CENTROS DE FORMAÇÃO UNIVERSITÁRIA

6. DIFUSÃO DAS UNIVERSIDADES

6.1. As Universidades

6.2. A Sorbona

6.3. O Pai da Escolástica

6.4. Os Quatro Grandes

6.5. Os Dois Gênios

            Ele foi o autor do melhor exemplo de simbolismo da Concepção Milagrosa de Maria, quando disse que assim como o sol penetra a uva e torna-a doce, assim também o Espírito Santo milagrosamente desceu para o útero de Maria fazendo-a conceber o Verbo Encarnado (Cf. Hino sobre a Natividade).

            O sacerdócio deve ser praticado na Igreja Siríaca Ortodoxa dentro das bases estruturadas por Cristo e pelos Apóstolos observando rigorosamente a orientação de São Paulo na Epístola a Timóteo.

            Duas palavras designam o sacerdócio na nossa Igreja:

            Caxixo - para padres significando ancião.

            Cohno - para padres no sentido de douto ou sábio.

            A palavra Hasio para bispos quer dizer puro ou justo dela originando a palavra essênio.

            E, finalmente Patriarca como já vimos Aboun que significa Pai ou Papa.

sacerdote ou ao bispo pregando, batizando e distribuindo a Comunhão (Cf. Dicionário Prático Bíblico, pp. 78).

            Essencialmente na nossa Igreja Sirian Ortodoxa reservou-se só aos diáconos evangelistas e arquidiáconos o ministério do batismo ao fiel só em casos de extrema necessidade, e, atualmente os diáconos não mais distribuem a Comunhão.

            Na simbologia da nossa Igreja os diáconos durante a Santa Missa representam os anjos em volta do trono celestial enquanto o sacerdote é o Cristo celebrando a Santa Missa, em nome da Igreja (“In Persona Ecclesiae e In Nome Christi”), com poder para transformar o Pão e o Vinho no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; no entanto, quando o sacerdote se vira para o povo e distribui os Santos Elementos torna-se apóstolo da Boa Nova, o Mensageiro e supridor do Meio da Salvação.

            O diácono por sua vez portador do turíbulo desempenha importante papel em qualquer celebração ou ministério de sacramento. Podemos citar, por exemplo, o fato de o turíbulo quando trazido ao altar pelo diácono, representa S. João Batista, o precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo preparando o povo para a vinda do Messias, ou quando desce o diácono com o turíbulo entre o povo representa o turíbulo, a vinda de Cristo, o Verbo Encarnado, para este mundo e trazendo a toda a humanidade o infinito amor de Deus Pai, oferecendo a Si, Cristo, como sacrifício por todos nós e retornando ao Pai reconciliados o céu e a terra.

            Quando olhamos a história da nossa Igreja Sirian ou Siríaca Ortodoxa de Antioquia não podemos deixar de citar o grande diácono e monge S. Efrém (ou Afrém) o Siríaco que nunca aceitou receber o sacerdócio pleno. Definido como o pai fundador da literatura siríaca, foi também o precursor do misticismo medieval... Moldou a veneração pública da Igreja Oriental. Seus hinos foram especialmente influentes e acompanhavam os fiéis por todas suas vidas cristãs.

            Efetivamente, S. Efrém foi exemplo máximo do diaconato celibatário que constituído em simples monge e ascético foi prolífero nos trabalhos literários de poesia, filosofia, teologia e até mesmo re-escrevendo a história de José no Egito de forma teatral.

            O que, no entanto, poucos sabem, é que quando à beira da morte como último desejo deste anacoreta em seu Testamento, 135 – registrou: “Àquele que me puser um pálio, que saia para a escuridão externa! E aquele que me deitar com uma mortalha, que seja arremessado na Geheena do inferno! Que ele me enterre com minha capa e meu capuz, pois o ornamento não identifica o malfeitor!

            Por que será que à última hora ele não aceitou ser enterrado com o símbolo do sacerdócio, ou seja, o pálio?

            É simples, em toda a sua vida buscou manter sua imagem de asceta e ancoreta que viveu para exaltar o Altíssimo e sua produção sempre foi voltada para o ensino dos leigos orientando-os na vida espiritual e defendendo-s das heresias.

7. PANORAMA GERAL DO SURGIMENTO DAS ESCOLAS TEOLÓGICAS ORTODOXAS.......................................................................................................... p. 15

I. PERÍODO PATRÍSTICO (SÉCULO I – VI

II. A ERA DE JUSTINIANO (SÉCULO VI – VIII)

III. PERÍODO DE FÓCIO E CERULÁRIO (SÉCULO IX – XIII)

IV. O PERÍODO DE GREGÓRIO PALAMAS (SÉCULOS XIV – XV

V. A TEOLOGIA DA DIÁSPORA (SÉCULOS XVI – XVII

VI. A ESCOLA DE KIEV (SÉCULOS XVII – XVIII

VII. O RENASCIMENTO MODERNO (SÉCULO XIX – XX

            a) O Renascimento Russo

            b) Teologia Ortodoxa da Segunda Diáspora

            c) O Renascimento Grego

8. PATRIMÔNIO TEOLÓGICO-CULTURAL DA IGREJA SIRIAN ORTODOXA DE ANTIOQUIA

            I. PERÍODO DAS ORIGENS (SÉCULOS V – VII);

            II. PERÍODO DO DESENVOLVIMENTO (SÉCULOS VIII – XIII);

            II. PERÍODO DA DECADÊNCIA (SÉCULOS XIV – XIX).

8.1. Escolas Teológicas da Antigüidade Cristã.

 8.2. A Filosofia da Teologia Assíria

CAPÍTULO III

VISÃO SINÓPTICA DA COLEGIALIDADE PRESBITERAL NA HISTÓRIA DA IGREJA

9. ORIGENS DO PRESBITÉRIO

9.1. Origem e influência judaica do presbitério segundo o Antigo Testamento

9.2. O Presbitério no Novo Testamento

10. TESTEMUNHOS DOS PADRES DA IGREJA SOBRE O PRESBITÉRIO

11. A COLEGIALIDADE PRESBITERAL NO SÉCULO III

12. AS DUAS CORRESNTES

13. VESTIGIOS DA COLEGIALIDADE PRESBITERAL

PROCESSO DE APERFEIÇOAMENTO NA DOUTRINA CRISTÃ ORTODOXA

APRESENTAÇÃO

            Na abertura oficial das comemorações ao ANO JUBILAR do Qüinquagésimo Aniversário da chegado do Arcebispo † Mar Crisóstomos Moussa Matanos Salama ao Brasil; assumimos o desafio, como Igreja Missionária de Evangelização, nos adequar as determinações da Bula Patriarcal Nº 128/83.

            A Eparquia Ortodoxa de Goiânia – Diocese dos Estados de Goiás e Tocantins, através de V. Ex.ª Revmª DOM JOSÉ FAUSTINO FILHO, Bispo Diocesano e Vice-Presidente da Igreja Católica Ortodoxa Siriana do BrasilICOSB dá encaminhamento às decisões estabelecidas no XVI Sínodo Ortodoxo Nacional (XVI SON’08) realizado nos dias 22 a 24 de Fevereiro de 2008 em Taguatinga/DF. Foi definida neste Sínodo uma Comissão de Formação do Clero Brasileiro de Tradição Pré-Calcedonianada que realizará materiais e/ou subsídios de estudos ao clero brasileiro.  

            Nesta perspectiva a Igreja Local ou Particular (Diocese, vem do grego, “Diíkisis”) convoca seu Presbitério e/ou cristãos de boa vontade a participarem do PROCESSO DE APERFEIÇOAMENTO NA DOUTRINA CRISTÃ ORTODOXA – PADCO. Este primeiro fascículo mensal de uma série de temas em doze edições abordará primeiramente as “Origens dos Seminários, Universidades e do Clero”. Este Processo de Aperfeiçoamento na Doutrina Cristã Ortodoxa é uma Escola Permanente de Formação na Fé Cristã Ortodoxa e na sua pureza para todos os fiéis cristãos, membros do Corpo Místico de Cristo. Teremos a oportunidade de aperfeiçoar e aprofundar diversos temas abordados (e/ou surgidos) através das conclusões gerais garimpadas em plenário.

            Sim, o conhecimento produzido pelo Processo de Aperfeiçoamento na Doutrina Cristã Ortodoxa, como veremos neste primeiro fascículo, será uma tentativa de se aproximar ao máximo da verdadeira fé cristã transmitidas pelos Ss. Apóstolos às suas Igrejas. No entanto, hoje convivemos com algumas formas de ensinamentos dogmáticos: o que os “cientistas” dizem é verdade inquestionável. Os “cientistas” são o CLERO, responsáveis por revelar a verdade dos textos sagrados, dos escritos da patrística, dos ensaios teológicos (...) no decorrer dos séculos. Pela fé, a verdade é imutável e revelada, nunca construída. A fé não precisa de provas, demonstrações ou argumentos: cremos que Jesus Cristo é o filho de Deus sem precisarmos de um exame de paternidade. Às vezes, a verdade de cada indivíduo é distorcida e não se fundamenta mais na noção de que a verdade é sempre transitória, construída paulatinamente e em constante processo de aperfeiçoamento, transformando-se muitas das vezes pela desobediência, em concorrente da fé. Ainda assim, a produção de conhecimento pode ser útil para nos livrar de ciladas que a fé às vezes deixa pelo caminho.

            Há uma gama de informações que com direcionamento coerente produzirá nas suas respectivas igrejas uma formação amadurecida e transformadora na pureza de fé. O nosso presbitério é capaz e apto a este processo inovador. E queremos caminhar como Igreja de Missão.

(faixa) que indica a sua categoria, já os arquidiáconos paramentam-se como os sacerdotes orientais, mas não usam casula (capa sacerdotal).

            Só ao Patriarca, o Maferiono (Católicos) e os bispos metropolitanos ou não tem o direito de ordenar diáconos até o nível dos guardiões, para as chamadas categorias maiores deve-se sempre ter a aprovação Patriarcal.

            Entre os diáconos em evidência pelo saber a respeito das regras e rituais da Igreja escolhe-se os chefes dos grupos diaconais ou “rish gudo”, isto porque na nossa Igreja as orações são cantadas e os diáconos formam dois grupos na frente do altar “gude” a exemplo da visão de Santo Ignátius de Antioquia, o Iluminado, e, por organização de Santo Afrém, o Siríaco, conseqüentemente para liderar os grupos, escolhem-se justamente tais diáconos que vão não só liderar mas ensinar os novos diáconos.

            Existe também na nossa Igreja a categoria das diaconisas, ressalte-se com uma categoria única, portando as vestimentas idênticas aos dos diáconos guardiães. Na antiguidade eram responsáveis como os diáconos desta categoria pela limpeza guardam, e administração das Igrejas e das entidades caritativas da Igreja.

            Em Filipos, diáconos já são cargos estabelecidos, como o caso da diaconisa Febe (Cf. Rm. 16, 1), em contraposição ao uso geral do termo (servidores) em outras cartas (Cf. Rm 13,4; 15, 8; 1Cor. 3, 5; 2Cor. 3, 6; 6, 4; 11, 15.23; Gl. 2, 17). Por isso, o apóstolo Paulo escreve à comunidade dos filipenses com seus bispos (episcopoi) e diáconos (diaconoi) (Fl. 1,1), que são os representantes pela comunidade.

            Hoje o diaconato na nossa Igreja está restrito e exclusivamente ao serviço do altar e ao canto, orações, ensino e em alguns lugares envolvido em atos de trabalhos caritativos.

            Todos os diáconos e diaconisas têm a obrigação de servir a Igreja e o Altar num trabalho voluntário e isento de qualquer remuneração, pelo contrário, o diácono deve ajudar quando necessário para a manutenção da Igreja e demais cargos sacerdotais.

            O diácono é Ministro Sagrado no Novo Testamento, esta Ordem Sacra foi instituída para auxiliar a administração da Igreja. A palavra MXAMXONO em aramaico significa servidor ou servo, assim como diácono em grego tem o mesmo significado, e a palavra é usada às vezes neste sentido, no Novo Testamento. Contudo, sabemos que os diáconos não eram serventes de mesa, uma vez que os apóstolos foram tão cuidadosos ao fazê-los escolher pelo povo e os ordenaram impondo as mãos solenemente. S. Paulo em sua carta a Timóteo estabelece alevantado padrão espiritual de vida para os diáconos (1Tm. 3, 8-10). A função do diácono era tripla (na Igreja Primitiva): o serviço da mesa (At. 6,2), a pregação (At. 7, 2-53), e, a administração do batismo (At. 8, 38). Pelos Padres Apostólicos sabemos que os diáconos constituíam uma ordem apostólica e ocupavam o terceiro lugar na hierarquia eclesiástica, logo após  o  bispo  e   o   presbítero. O   diácono   assiste   ao

            Dos bispos são escolhidos os metropolitanos, o Maferiono (Católicos) - maferiono quer dizer o que produz frutos, pois, a ele cabe circular no mundo ordenando novos sacerdotes, diáconos, consagrar igrejas e orientar os presbíteros. Dos bispos, também, é escolhido o Patriarca - chefe supremo da Igreja e sucessor direto de São Pedro Apóstolo para a Cátedra de Antioquia - titular, portanto, da cátedra como Patriarca Sirian Ortodoxo de Antioquia e de todo o Oriente.

            Os bispos, os metropolitanos, o maferiono ou católicos, e o patriarca, obrigatoriamente deverão ser celibatários.

            Os padres e diáconos por sua vez podem ser celibatários ou casados.

            Dos padres celibatários são escolhidos e ordenados os bispos com direito a ascensão patriarcal.

            Dos padres casados são ordenados epíscopos, que são cargos equivalentes aos dos bispos, mas sem direito a ascensão patriarcal.

            Os padres casados são os que deverão coordenar os trabalhos de base ou as organizações comunitárias paroquiais juntamente com os conselhos administrativos das Igrejas, formados, estes últimos só por leigos.

            Observe-se que com relação aos padres casados, infelizmente, devido às constantes perseguições sofridas pela Igreja, os celibatários, também, passaram a desenvolver trabalhos paroquiais.

            Os diáconos, celibatários ou não, são a fonte inicial e natural das ordenações dos padres e são escolhidos entre o povo.

            Mas, que quer dizer o diaconato na nossa Igreja ou na Igreja Cristã? Como entendê-lo e como ver o seu desenvolvimento na história?

            Em verdade o diaconato começa no tempo dos apóstolos logo depois do Pentecostes, quando os apóstolos assumem o sacerdócio pleno e vêem que não mais dispõe de tempo para cuidar da mesa dos órfãos, viúvas e desamparados; então escolhem alguns homens de bem e designam-nos para cuidar destes afazeres. Escolheram então sete homens que temos como os sete primeiros diáconos da Igreja, quais sejam Estevão, Felipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas, Nicolau prosélito de Antioquia (At. 6).

            Essencialmente o diácono crê que a força da oração tem o poder de operar a conversão do ser humano..., e, mais ainda, crê o diácono que crer...não nos tira liberdade, mas acrescenta virtude...

            O diaconato na Igreja Siríaca tem como patrono Santo Estevão, diácono, e, primeiro mártir cristão; e, o diaconato está dividido em cinco categorias quais sejam; cantores (mzamrone), leitores (koruie), guardiões (efediacone), evangelistas (ewengueloie) e arquidiáconos (arkidiakone).

            Todos os diáconos como os sacerdotes devem usar a alva (túnica branca), as categorias dos leitores, guardiães e evengelistas   usam  além  da  alva,  a  dalmática

            Portanto, as vocações suscitadas no seio das comunidades ortodoxas de missão são frutos da mesma missão profética alavancada por † Mar Crisóstomos Moussa Matanos Salama. Não podemos perder estas vocações e não temos este direito, embora os afazeres pastorais nos sobrecarreguem; pensamos que as diversas vocações representem um dom para a Igreja no Brasil, em especial, para Padres e Bispos. A base teórica trabalhada nestes centros de formação são as Sagradas Escrituras, a Tradição da Igreja Apostólica, as determinações Patriarcais e as orientações salutares  deixadas  por † Mar Crisóstomos Moussa Matanos Salama.

            O objetivo deste estudo sistemático é tentar sugerir o que pode ou deve significar para a Igreja de Missão no Brasil, ou numa parte dela, as vocações com seu acolhimento, sua formação filosófico-teológica, humana e a colegialidade presbiteral. É interessante e de vital importância para a Igreja de hoje, aqui e alhures.

            De maneira análoga, em nível de Igreja Local ou Particular, isto é, em nível diocesano: os Presbíteros, conforme demonstraremos neste estudo, só podem exercer sua autoridade ministerial em comunhão hierárquica com o bispo diocesano e demais membros do colégio presbiteral.

            Para não haver dúvidas nesta exposição, entendemos por colegialidade presbiteral em nível diocesano. O termo colegialidade provém de “collegium”. O conceito de “collegium” na Igreja, não pode ser entendido no sentido jurídico-profano do Direito Romano, isto é, uma união de pessoas “pari gradu”, ou seja, pessoas que estejam situadas no mesmo nível (colegas), e sim no sentido espiritual (eclesiológico) de uma comunhão hierárquica de irmãos, iguais em dignidade pelo Batismo como filhos adotivos de Deus, e na questão em tela, participantes de um mesmo sacerdócio e ministério de Cristo, mas com funções ou serviços distintos.

            Galgamos para o primeiro fascículo intitulado: “Origens dos Seminários, Universidades e do Clero”, um veículo de aprendizagens nos Mistérios da Fé Ortodoxa no início do Ano Jubilar.

            O presente PROCESSO DE APERFEIÇOAMENTO NA DOUTRINA CRISTÃ ORTODOXA é o tempo favorável da Graça de Deus.

            Oxalá! Que Deus nos ouça.

AP. GYN/GO, JANEIRO DE 2009.

JUBILEU DE OURO DA CHEGADA AO BRASIL DO ARCEBISPO PRIMAZ

† MAR CRISÓSTOMOS MOUSSA MATANOS SALAMA,

PARA A IGREJA MISSIONÁRIA DE EVANGELIZAÇÃO (1959 – 2009).

COMISSÃO DE FORMAÇÃO DO CLERO BRASILEIRO

DE TRADIÇÃO PRÉ-CALCEDONIANA.

PARTE I

BASE HISTÓRICO-CULTURAL DA CRIAÇÃO DOS SEMINÁRIOS

CAPÍTULO I

A FORMAÇÃO DO CLERO NO OCIDENTE E NO ORIENTE

1. A FORMAÇÃO DOS CANDIDATOS VOCACIONADOS:

1.1. À Sombra dos Presbitérios.

            A palavra seminário e seminarista são de criação relativamente recente: data do século XVI, e foi divulgada principalmente pelo Concílio de Trento, na Igreja Ocidental.

            Todavia, apenas terminadas as perseguições, a Igreja começa a dedicar especial cuidado à formação e preparação dos candidatos ao sacerdócio.

            A formação do clero ocupa em nossos dias um lugar de preeminência excepcional.

            Inúmeras normas e diretivas nos diversos patriarcados regulam a formação nos seminários.

            Mesmo os sacerdotes destinados às missões ou ao trabalho entre o povo simples devem fazer seus estudos regulares nos seminários.

            De todos os sacerdotes exige-se uma cultura não inferior ao nível médio dos leigos.

            Ao lado da cultura geral, deve dedicar um tempo especial ao estudo da filosofia e da teologia.

            Muitos sacerdotes completam sua formação em universidades e faculdades de ensino superior.

            Cuidado especial merece a seleção das vocações dos candidatos ao sacerdócio.

            Severas as exigências para a aceitação dos levitas do Senhor.

            Procurava-se por todos os meios salvaguardar a dignidade sacerdotal.

            Num aspecto místico, a prática do celibato é tida em altíssimo valor.

            Talvez nunca na história das Igrejas o clero atingiu tão alto grau de virtude.

            Também entre os clérigos casados há uma riqueza grandiosa, através de Cristo com sua Igreja. Existe no seio familiar uma realidade espiritual. Os Ss. Padres Orientais Apostólicos ensinam que o lar cristão é uma pequena igreja e que esposo e esposa podem vencer o mundo. A unidade do matrimônio é carismática e sacramental. Como os talentos da parábola (Cf. Mt. 25, 14ss), ela deve frutificar. Aquele que optou pelo matrimônio, pois é uma escolha pessoal; afastando-se de modo ou de outro, de Cristo, perde o princípio da unidade do casal. Quebra o ser espiritual do casal que, como a Igreja, está apoiada sobre a pedra angular, o próprio também, chamado de Siríaco - idioma este falado pelo próprio Cristo, pela Virgem Maria e pelos discípulos.

            É assim Antioquia a primeira sede organizada fundada diretamente por São Pedro e da qual realmente temos registro nos Atos dos Apóstolos, e, é aí pela primeira vez que os fiéis são chamados de Cristãos (At. 11, 26).

            Por ser, também, uma sede governamental romana para o Oriente, torna-se a Cátedra de Antioquia conhecida como sede Patriarcal de Antioquia e do Oriente.

            Nosso Patriarca atual é Sua Beatitude Mar Ignátius Zakka 1º, Iwas o 122º da sucessão patriarcal petrina.

            Com a destruição de Antioquia no século VI d.C., por um terremoto, a sede foi transferida sucessivamente para Malátia, Mardin e agora para Damasco na Síria.

            Embora incorrendo nestas diversas transferências, manteve a Cátedra o título de Patriarca de Antioquia e de todo o Oriente, desinência histórica única, válida para a Igreja Siríaca por se constituir na autêntica Cátedra de Antioquia.

            É premissa básica, dogma, da Igreja Siríaca ou Sirian Ortodoxa, crer na Santíssima Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus Onipotente, Fonte e Criador de Toda a vida por nós denominado em Siríaco ou Aramaico “IL” ou “ALOHO”.

            A segunda pessoa da Santíssima Trindade una e indivisível é o Verbo Encarnado, Filho Unigênito de Deus Pai, nascido eternamente do Pai, encarnou-Se da Virgem Maria para salvação da humanidade na pessoa de Jesus Cristo o Messias “MXIHO” que em Aramaico quer dizer “Ungido ou Indicado para Salvador”.

            Na Santíssima Trindade a terceira pessoa é o Espírito Santo que procede do Pai e é enviado do Filho, mas que deve ser adorado igualmente com o Pai e o Filho.

            O Pai, a primeira pessoa da Santíssima Trindade que chamamos de “ABO” em Aramaico quer dizer princípio da vida sendo assim a causa de toda a vida. Dele nasceu o Filho e dele procede, o Espírito Santo.

            Cremos na Divina Maternidade de Maria tendo ela concebido do Espírito Santo sem mácula e persistindo o seu estado virginal após o nascimento de Cristo e é para a Igreja Siríaca Ortodoxa a Sempiterna Virgem Maria Mãe de Deus. Acredita a nossa Igreja Siríaca nas duas naturezas, a divina e a humana, unificadas e indivisíveis na pessoa de Jesus Cristo e que quando Crucificado padeceu e morreu, separando-se o Espírito do Corpo sem separação da Divindade dos mesmos, ressuscitando ao terceiro dia como era o seu desejo, salvando, desta forma, a humanidade.

            A Igreja Siríaca Ortodoxa de Antioquia e de Todo o Oriente, possui os sete sacramentos e destes para análise da administração, catequese e pregação do Cristianismo abordaremos rapidamente o Sacerdócio, como nos foi pedido. Composto de três áreas distintas, o sacerdócio, hierarquicamente, partindo de baixo para cima é formado pelos diáconos, presbíteros e bispos.

             

            Ao comentar a EPICLESE sobre os fiéis, S. Máximo, o Confessor realça a sua ação dinâmica: “Nós todos que participamos no mesmo pão e no mesmo cálice, estamos unidos uns aos outros na comunhão ao único Espírito Santo” (Cf. Mystag., 24). “Nós pedimos que envie o Espírito Santo, explica S. Cirilo de Jerusalém, pois, universalmente, o que o Espírito Santo toca é mudado” (Cf, V Cat. Mystag., 16). Assim, após ter mudado os dons, o Espírito opera a mudança dos próprios comungantes. É outro aspecto da eucaristia, que os espirituais chamam “sacramento do irmão”. “S. Cirílo de Alexandria insiste fortemente por seu turno sobre a unidade que “a eulogia mística” produz entre os fiéis” (Cf. In Jean, XI, PG 74, 557).

            “O Espírito e o Esposo dizem: vem Senhor!” É o sentido escatológico e da parusia da EPICLESE voltada para as núpcias místicas do Cristo com a Igreja, mas também com toda a alma, pessoalmente, nominativamente. Como diz Teodoreto de Cyn: “Ao consumarmos a carne do Noivo e o seu sangue, nós entramos na Koinonia nupcial (comunhão)” (Cf. “Eucharistie ET Cantique dês Cantiques”, in Irénikon, 1950, p. 274).

            Todavia, inserido no contexto histórico medieval, onde o poder de chefia dos bispos era absolutamente monárquico, S. Tomás de Aquino não demonstrou ter conhecimento ou consciência de uma tradição antiga na Igreja quando ao comentar o uso da Concelebração em algumas Igrejas escreveu: “Sicut Apostoli Christo coenanti concoenaverunt, ita novi ordinati epíscopo ordinanti concelebrant” (Cf. S. Thomas, IIIª, Q. 82, a. 2º).

            Outra prática bastante significativa da colegialidade presbiteral, e que chegou até os nossos dias, foi à imposição das mãos dos presbíteros na ordenação.

            Contudo a partir da Idade Média este e outros sinais da colegialidade presbiteral tornaram-se frágeis e irrelevantes diante da monarquialidade absoluta dos bispos. Na doutrina, porém, uma corrente teológica guardou zelosamente a base teórica da colegialidade presbiteral, distinguindo entre sacerdócio e superintendência ou episcopado. Esta distinção entre sacerdócio e governo vem sendo atualmente bastante criticada, porque separa muito o governo pastoral de sua base eucarística.             Entretanto, graças a ela podemos compreender que as circunstâncias históricas podem alterar profundamente o comportamento do colégio presbiteral. Todavia, não sofre alteração a realidade profunda da colegialidade, baseada na unidade do sacerdócio do colégio a serviço da pastoral dos fiéis.

            Nossa Igreja Sirian Ortodoxa é uma das quatro cátedras básicas do Cristianismo e durante os primórdios do Cristianismo torna-se o esteio da nova doutrina amparando-a teologicamente nos primeiros grandes concílios.

            Como já repetimos várias vezes, a sede principal da nossa Igreja Siríaca é Antioquia, fundada por São Pedro Apóstolo e o  seu  idioma   básico   é  o  Aramaico,

Cristo. Segundo a nossa tradição, o casal está inserido na Igreja porque tanto esta como aquele têm o mesmo fundamento. De outro lado, não há sacramento fora da Igreja.

            Os párocos desenvolvem seu zelo apostólico pela orientação das associações religiosas, pelo catecismo às crianças, pelos movimentos bíblicos e litúrgicos, pelo esplendor do culto.

            Novas soluções são propostas para o problema do sustento dos clérigos, visando evitar qualquer aparência de simonia na administração dos sacramentos.

            É necessário desenvolver novas formas de renovação paroquial ou algo semelhante.

            Revestem-se de grande solenidade as primeiras comunhões, as comunhões pascais, os batizados, os matrimônios, os devocionários à Virgem Maria e nos tríduos aos padroeiros.

            Imensa também a atividade apostólica dos bispos. Grande a preocupação pelas visitas pastorais e pela organização das paróquias (do grego, “Parikia”) e/ou comunidades ortodoxas.

            Com oportunas cartas pastorais orientam o clero (do grego, “Kliros”) e os fiéis leigos (do grego, “Laós”) de sua Diocese e/ou Eparquia (do grego, “Diíkisis”) nos problemas do dia. Muitas delas revestem-se de grande valor doutrinário.

            Intensa, a preocupação do episcopado ortodoxo em manter estreita união com as diretivas patriarcais.

            Resplandece hoje mais do que nunca a unidade e a universidade da Igreja.

            Em regra geral, o clero se forma à sombra dos presbitérios e das abadias.

            Por exemplo, na Itália, sacerdotes de diversas paróquias rurais reúnem no próprio presbitério os jovens aspirantes ao sacerdócio para instruí-los no serviço divino. Preparam assim seus futuros sucessores.

            S. Agostinho de Hipona e Eusébio de Verselas reúnem na própria casa episcopal os jovens desejosos de seguir a vocação sacerdotal. São instruídos e educados pelo clero mais antigo.

            Na França, Cesário de Arles procede do mesmo modo.

            Os discípulos de S. Agostinho passam a ocupar importantes sedes episcopais na África. Alípio, bispo Tagaste. Sevério, bispo de Milevi. Evódio, bispo de Uzala e posteriormente sucessor de S. Pedro (37-67 DC) na Sé Petrina de Antioquia, no período de 67 – 68 DC. Urbano, de Sica Venéria. Prófugo, de Cirta.  

            Também os mosteiros preparam um clero seleto.

            Dos monges formados por S. Martinho em Marmoutiers, muitos se tornaram zelosos pastores de almas: S. Corentino em Cornualha, S. Maurício em Angers, S. Vitório em Cenomani.

            A S. Honorato, metropolita de Arles, sucederam S. Hilário e S. Cesário, seus discípulos de Lerino. De Lerino saíram outros importantes bispos: S. Lupo, bispo de Troyes; S. Euquério, de Lião; S. Valeriano, de Cimiès: S. Rurício, de Narbona.

            Sementeiras de sacerdotes e bispos zelosos foram também às escolas catequéticas e mosteiros orientais.

            Várias obras dos padres orientais desta época demonstram o interesse pela formação sacerdotal. No Oriente, S. Gregório Nazianzeno escreveu o “Discurso Sobre a Fuga”, e S. João Crisóstomo a obra “Sobre o Sacerdócio”. No Ocidente, S. Agostinho de Hipona escreveu “A Doutrina Cristã” e S. Ambrósio, “Sobre os Ofícios dos Ministérios”.

1.2. Seminaristas Sirian Ortodoxos em Atenas.

            Em 1920, na Igreja Sirian Ortodoxa em Atenas, aconteceu uma primeira imigração neste século de quarenta famílias da Turquia para Tessalonica e Atenas na Grécia. Muitos dos membros destas famílias se casaram na Grécia logicamente com membros da Igreja local que é a da cátedra de Constantinopla (rum-ortodoxo). A Grécia não dar aos imigrantes o direito de permanência, mas especificamente neste caso deu.

            Uma última família de nome Damir, originária da Turquia estabeleceu-se há dezoito anos em Atenas e vem propiciando um bom trabalho e estabilidade da coletividade naquele país.

            Em 1991 através de convênio cultural entre o Presidente da Grécia e o nosso atual Patriarca Zakka I, possibilitou a ida de Jorge Grazani para estudar teologia; em 1992, o Pe. Eliseu e mais dois frades, também, tiveram a oportunidade de estudar na Grécia, ficando este grupo de quatro frades rezando na Igreja dos Coptas Ortodoxos, uma vez que não possuíamos Igreja local.

            Em visita aos quatro frades estudantes, Deyroyo (frade) Afram Karim, hoje Bispo de New Jersey, deu-lhes 1400 dracmas (moeda grega), os frades se reuniram e compraram um cálice e uma patena, pagou a taxa de utilização da Igreja para os Armênios Ortodoxos, a despesa do seu sacristão e rezaram a primeira missa na presença de 10 pessoas.

            Passaram a promover reuniões semanais, e conseguiu publicar um semanário, vindo gradativamente a Igreja a ser um ponto de apoio para os imigrantes a fim de arrumar emprego para costureiras, artesãos e os mais diversos tipos de trabalhadores braçais agregando Sirian Ortodoxos, Nestorianos, Caldeus, etc…

            Já em Tessalonica, tem famílias Surianis com seus chefes formados em nível superior.

            O Patriarca já os visitou quatro vezes e foi convidado a fazer uma palestra sobre as conexões entre a Igreja Grega e a Igreja Sirian Ortodoxa. Fato pitoresco        A mudança do pão no corpo de Cristo efetua-se pelo poder do Espírito Santo”. A necessidade da sua intervenção explica-se pela significação e pelo papel especial do Sacerdócio Ordenado (“Kinotonia”). Para o Oriente, o único verdadeiro sacerdote é o Cristo: “Faz que nos seja dada a graça de receber da tua mão poderosa o teu corpo imaculado e o teu sangue precioso”, suplica o sacerdote. Ele pede igualmente durante o canto do Cherubikon: “Eis que me aproximo de ti, de cabeça inclinada; e eu te suplico: não afaste de mim o teu rosto, não me rejeites do número de teus servidores, mas digna-te admitir que estes dons te sejam oferecidos por mim, teu servo pecador e indigno. Pois és tu que ofereces e que és oferecido, que recebes e que és distribuído, ó Cristo nosso Deus...”. Os Padres Apostólicos nos dizem com muita clareza: “Nós, nós temos o papel de servidores; aquele que santifica e que transforma é Ele”. E ainda: “O sacerdote não dirige a sua mão sobre os dons senão depois der invocado a graça de Deus..., não é o sacerdote que opera seja o que for..., é a graça do Espírito, sobrevindo e cobrindo com suas asas, que realiza esse sacrifício místico”. Aliás, é toda a assembléia que suplica com o sacerdote: “Nós te pedimos, nós te suplicamos...”.

            De acordo com essa concepção, o sacerdote não se identifica com Cristo, ele não pronuncia as palavras “Isto é o meu corpo” in persona Christi, mas ele identifica-se com a Igreja e fala In persona Ecclesiae e in nome Christi. Para que as palavras do Cristo memorizadas pelo sacerdote adquiram a eficácia divina, o sacerdote invoca o Espírito Santo na EPICLESE. Das palavras da anamnese “tomou o pão... deu-o aos seus discípulos... dizendo... isto é (=ístin em grego) o meu corpo”, o Espírito Santo faz a anamnese epifânica (por isso que a primeira parte dela é em silêncio), manifesta a intervenção do Cristo ele próprio identificando as palavras pronunciadas pelo sacerdote com suas próprias palavras, identificando a eucaristia celebrada com a sua Santa Ceia, e isto é o milagre da metábole (eucaristia), da conversão dos dons. A EPICLESE eucarística é a tradição firme e unânime no Oriente. A EPICLESE exprime a “Lex orandi” litúrgica à qual respondem o consensus dos Padres, a sua doutrina trinitária e a sua teologia do Espírito Santo.

            A liturgia siríaca de S. Tiago testemunha-o: “Que esta hora é augusta e como é temível este momento, meus irmãos! Pois o Espírito Santo vivificador desce das alturas do céu e, vindo sobre esta eucaristia, a consagra”.

            Os Padres Orientais estabelecem a relação dinâmica (dínamus) do Espírito Santo com a humanidade de Cristo. A sua pneumatização deificante continua naqueles que participam da “carne sagrada”. Eles não são somente configurados ao Cristo, mas são cristificados, verbificados de fato, “associados à sua plenitude” (Cl. 2, 9), “concorporais e consangüíneos ao Cristo” (Cf. S. Cirilo de Jerusalém, Cath. 22, 3). “A eucaristia transforma em si mesma e torna semelhante... de modo que os fiéis podem ser chamados ‘deuses’ porque Deus na sua totalidade os enche totalmente” (Cf. Mystag., 24).

corresponde à totalidade do mistério celebrado, pois o presbitério na Celebração Eucarística “co-preside” na sua totalidade e perfeição de fé, espelho da Grande Liturgia Celestial, pois, pela Ordenação Sacerdotal, participa ativamente e intrinsecamente do múnus sacerdotal do epíscopo; e que não é o caso dos diáconos.

            Entretanto, todos os cristãos pelo Batismo, leigos (leikós) e clérigos participam do único Múnus Sacerdotal de Cristo, e Ele é único Grande Sumo Sacerdote do Pai. Na Santa Missa existe o presidente da celebração eucarística, aquele que preside o Ofício Divino. Para dá continuidade a sucessão apostólica, algum membro desta comunidade cristã, batizado e confirmado e este mesmo candidato, escolhido e eleito, conseqüentemente, será sagração para servir esta ou outra comunidade, nutrindo-a na perfeição cristã.

             A Divina Liturgia da Santa Missa só se realiza no seu ato perfeito se estiver em comunhão de fiéis, pois estes sacrifícios são pelas nossas intenções e para nossa salvação. Ninguém celebra sozinho, nem o padre (e/ou bispo) quando está sozinho. O mistério eucarístico só é perfeito se estiver em sintonia de comunhão (e/ou transcender) com os demais irmãos na fé (“In Persona Ecclesiae e In Nome Christi”). Na ausência de fiéis, o ministro ordenado fará a sua parte nas orações presidenciais, e conseqüentemente a dos fiéis.

            Por isso, ninguém pode exercer uma função mediadora em nome de outro, mas a única mediação é o de Cristo, e a ela nos incorporamos todos pelo batismo e na celebração da eucaristia, que é uma concelebração comunitária de consagrados, pois, somos um povo profético, sacerdotal e régio. O ministro, que preside a celebração comunitária ou liturgia pública no rito da igreja, não é um mediador entre Cristo e a comunidade, tampouco entre Deus e o povo, mas toda a comunidade tem acesso direto a Deus em Cristo, sendo o Espírito, que é invocado na consagração, aquele que se digna pairar sobre cada um de nós e sobre esses elementos do pão e do vinho; agindo, sagrando e transformando, tornando-os mistérios da presença de Cristo na eucaristia. Cada cristão, dentro da comunidade, oferece-se a Deus, identificando-se com a oferenda do próprio Cristo e atualizando assim o seu sacerdócio existencial. Isso não pode ser feito pelo ministro que está presidindo por si mesmo: trata-se de um ato global, comunitário e pessoal, de uma comunidade, toda ela sacerdotal e consagrada. Na liturgia antiga, o consagrador não era o ministro que presidia a (con)celebração, mas o Espírito Santo, o qual era invocado para que transformasse tanto o pão e o vinho quanto a identidade dos presentes. É o que ocorre durante a Santa Missa, na ANÁFORA ORIENTAL da nossa Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia. O contexto da celebração era espiritual e comunitário, em contraposição à práxis individualista do segundo milênio nas demais igrejas cristãs que se afastaram da antiga tradição.

            A Igreja é que celebra a eucaristia, e não o ministro como único protagonista.

acontece ao final de toda Missa Dominical quando o sacristão precisa fechar a Igreja, os fiéis ficam na praça em frente à Igreja por horas conversando e a população local já chama a praça de “Praça dos Surianis”.

            Hoje o governo da Grécia cedeu uma Igreja para uso de três comunidades cristãs, ou seja, os Sirian Ortodoxos, os Coptas e os Abissínios, uma vez que todos são monofisistas (jacobitas) nos dizeres dos gregos (antigos = rum-ortodoxos).

            Estudam ainda na Grécia duas freiras e quatro padres da nossa Igreja, buscando aprofundar os seus conhecimentos no campo da Teologia.

            No Oriente Médio, a Igreja após várias perseguições tem encontrado certa paz que permitiu o desenvolvimento de novas paróquias possuindo vários seminários, gráficas e centros culturais.

            Devemos ressaltar o fato de a nossa Igreja Siríaca possuir em franco funcionamento três grandes centros de formação sacerdotal desde os primórdios do Cristianismo com grande acervo de livros manuscritos, obras antiqüíssimas e relíquias milenares de santos, doutos e sacerdotes; tais centros são os Mosteiros e Seminários de Zaafaran e São Gabriel na atual Turquia, o primeiro lecionando há 1500 anos e o segundo há 1400 anos e principalmente o de Jerusalém - O Mosteiro e Seminário de São Marcos, antiga residência de Nossa Senhora a Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus.

            Novos núcleos de ensino sacerdotal vêm se desenvolvendo em todo o mundo, como no Líbano o Seminário de Atchane, em funcionamento e formando um grande número de sacerdotes. No campo assistencial, ainda, no Oriente Médio, existem varias entidades civis, principalmente os Conselhos Administrativos das Igrejas subvencionando e ajudando a Igreja na coordenação de orfanatos, asilos, escolas, bolsas de estudo e saúde, frutos do esforço cristão comunitário.

            Além do Líbano, podemos citar outras localidades significativas no empenho assistencial e religioso como Homs, Alepo, Kamishlie na Síria, e Mousul, Bagdad no Iraque.

            Nossa Igreja possui 84 liturgias, inclusive a mais usada de S. Tiago, complementada posteriormente pelos mestres da Igreja; sendo que todas as liturgias estão escritas em Siríaco ou Aramaico, e é um dever do sacerdote praticá-las na língua original principalmente na consagração dos elementos (pão e vinho).

            A imigração siríaca ortodoxa para fora do Oriente principalmente para as Américas teve seu início em 1890 devido às crises religioso-políticas, circunstâncias econômicas e principalmente a criação das facilidades de locomoção do homem. Esta grande movimentação gerou as grandes correntes migratórias siríacas para as Américas, sucessivamente em 1890, 1920, 1946 e na década de 50.

            Nas décadas de 50 e 60 houve um grande movimento migratório para a Europa em especial para a Suécia, Alemanha, França, Áustria e Holanda.

            As estatísticas indicam que os primeiros siríacos a chegar ao Brasil desembarcaram em 1895, mas só por volta de 1950 com um número já significativo de imigrantes é que se iniciou realmente um movimento de organização comunitária.

            Este movimento só consegue concretizar objetivos justamente ao receber as novas levas migratórias de 49 e 50 da Palestina quando em 1958 foi edificada a primeira Igreja Siríaca Ortodoxa em solo brasileiro - a Igreja Sirian Ortodoxa S. João Batista, em São Paulo, projetada e construída exclusivamente com os recursos da coletividade siríaca radicada em São Paulo, quando da visita do primeiro Patriarca Siríaco as Américas, SS. Mar Ignátius Yacoub III. Após a implantação do marco inicial surge a Igreja de S. Pedro em Belo Horizonte e a Catedral de S. Jorge em Campo Grande, e, finalmente a Igreja de Stª Maria em São Paulo.

            No ramo da IGREJA MISSIONÁRIA DE EVANGELIZAÇÃO, nós, os brasileiros que não temos descendência siríaca, somos agregados a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia - ISOA. E a Igreja Católica Ortodoxa Siriana do Brasil - ICOSB é parte inseparável da ISOA e Jurisdicionada ao Patriarcado de Antioquia.  Atualmente estamos sendo acompanhados novamente desde o ano passado pelo Pároco da Catedral de S. Jorge em Campo Grande/MS – Mons. Antônio Jorge Nakkoud, nomeado por SS. Moran Mar Ignátius Zakka I, Iwas, Delegado Patriarcal para a Igreja Missionária de Evangelização no Brasil.

1.3. O Celibato Eclesiástico.

            Uma questão que vem à tona, quando se fala do clero, é o celibato. As origens dessa legislação eclesiástica remontam ao século IV.

            O primeiro decreto, a tal respeito emanou-o o concílio de Elvira, por volta do ano 305. Prescrevia o celibato para os bispos, sacerdotes e diáconos. Válido naturalmente apenas para a Espanha. Mas indicava um costume que começava a se generalizar no Ocidente.

            Em 386 a prescrição foi renovada num sínodo de Roma. O papa Sirício estendeu a toda a Igreja do Ocidente. Desde fins do século IV, o celibato tornou-se lei para todo o clero ocidental. Sem preocupações e liames familiares, podiam os clérigos atender melhor à própria perfeição e às obras de apostolado, segundo o entendimento desta tradição cristã.

            Tal legislação não entrou em vigor entre os orientais. Quando a questão foi suscitada no Concílio de Nicéia de 325, o monge Pafúncio opôs-se tenazmente a qualquer prescrição a esse respeito. Devia-se respeitar a antiga tradição. No Oriente vigorou apenas a proibição de núpcias aos que já tinham recebido as sagradas ordenações.

sacerdócio de Melquisedec, rei-sacerdote do Deus Altíssimo que já existia antes de Abraão praticando o sacrifício do pão e do vinho; S. Paulo desenvolve a figura de Melquisedec como tipo de Cristo, o eterno sumo-sacerdote da Nova Aliança que não lhe cita a genealogia e não como os levitas, deste modo S. Paulo tirou desta circunstância um indício de que o Espírito Santo quis prefigurar o sacerdócio eterno de Cristo.

            Pois bem, a exemplo de Melquisedec, Cristo, também, consagrou pão e vinho ao Deus Altíssimo e a exemplo ainda de Melquisedec, a primeira parte da nossa Missa, chamada Ofício de Melquisedec, e, é celebrada pelo sacerdote com a cortina fechada.

            Na simbologia da Igreja, o pão tem de ser completo, pois seus elementos têm seu significado, vamos a eles:

O pão é óbvio é transformado pelo sacerdote no corpo de Cristo;

O fermento é necessário para que seja pão;

O trigo é o elemento fundamental do pão e significa a terra, pois, Adão é produto deste elemento, foi feito de barro isto é terra e água;

A água entra como vimos na composição do barro, é o elemento essencial à vida;

O azeite tem que ser de olivas, simboliza o ar;

O sal representa o fogo necessário para a complementação e formação do pão;

É importante salientar que o vinho no Mistério Eucarístico da Santa Missa deve ser completo também, isto é deve ser de uvas vermelhas e deve conter algum teor alcoólico e a água deve ser pura, limpa, e, portanto potável.

            Em Roma, no tempo de Inocêncio I, a quebra da unidade com os presbíteros fora da cidade acentuou-se tanto, que eles se sentiam autônomos na solenidade da eucaristia. O uso do “fermentum” conservou-se em Roma até o século IX, mas nas Igrejas do Oriente se permanece a prática até hoje.

            Para a Igreja Ocidental, o “fermentum” era o envio do pão consagrado e era uma realidade sacramental, produto da unidade. “Porque o pão é um, nós somos um corpo; pois participamos todos no mesmo pão” (1Cor. 10,17). A tradição do “fermentum” conservou-se durante muitíssimo tempo com a sua força de testemunho na ordenação do presbítero. O presbítero era ordenado para uma Igreja determinada, e enviado imediatamente para ela (Cf. Pascher, Bispo e Presbitério, p. 20).

            Paralelamente ao “fermentum”, e ainda mais expressivo, a Igreja do Ocidente conhece e conservou o rito da concelebração do presbitério com o bispo (século VII  ao  Século  XIII).  Entretanto,  no  Oriente  o  termo  “concelebração”  não

cabido da catedral... é exigido sob pena de invalidade da decisão do bispo. São poucos esses casos, mas existem.

            Ainda como vestígio da primitiva colegialidade, conservou-se a famosa tradição do “fermentum” eucarístico. O pão como alimento no Oriente é vital e está presente em todas as refeições da família. E era tido sempre como sagrado por muitos povos da antigüidade. Mas sempre falamos do pão completo de farinha de trigo, fermento, azeite e sal como é feito até hoje no Oriente. Mas aí vem a pergunta do dia; o Cristo fez o milagre da transformação do pão e do vinho no seu corpo e sangue com pão comum ou com pão ázimo? Temos de lembrar que Nosso Senhor Jesus Cristo na páscoa dos israelitas ou judeus, comeu um pão ázimo conforme a tradição; os judeus comemoravam anualmente a páscoa entre 14 e 21 de Nissan (março – abril), lembrando a saída dos judeus do Egito, lembrando-os Moisés do jugo faraônico (Êxodo 34 – 24) – coincidentemente este período era o Ano Novo do calendário Assírio-babilônico.

            Nestes sete dias os judeus comemoravam desde a passagem do Anjo da Morte por sobre as suas casas não ferindo de morte os seus primogênitos, indo ferir de morte os primogênitos dos egípcios, até a sua libertação pelo faraó para sair do Egito. Durante os sete dias os judeus só comiam o pão ázimo isto é sem levedo ou qualquer tipo de fermento (veja as cerimônias judaicas prescritas em Êxodo 12 e Levíticos 23).

            Jesus Cristo quando na Santa Ceia está com os seus discípulos e provavelmente com as mulheres santas e talvez outros membros das famílias destes em verdade está comemorando a páscoa judaica, e logo em seguida, institui a Nova Aliança, onde elimina os sacrifícios animais sangrentos, e propõe o sacrifício de pão e vinho ao Deus Altíssimo a exemplo de Melquisedec. No Velho Testamento, no livro do Gênesis, capítulo 14 versículo 18 a 20 lemos. Mas Melquisedec, rei de Salém, oferecendo pão e vinho, porque era sacerdote do Deus Altíssimo, abençoou a Abraão e lhe disse: Bendito seja Abraão da parte do Altíssimo Deus, que criou o céu e a terra. E bendito seja o Deus Altíssimo que te protegeu nas tuas mãos os teus inimigos. E Abraão lhe deu o dízimo de tudo o que tinha tirado.

            Para compreender esta passagem, é preciso saber que Abraão tinha de lutar contra Codorlamor e os seus reis aliados que tinham prendido seu sobrinho Ló, e como Abraão vencera a Luta cobrou dízimo dos vencidos; no seu retorno encontra com Melquisedec cujo nome quer dizer “Rei Justo” em Assírio-aramaico ou Siríaco, e, o mesmo Melquisedec vai ter o nome citado outra vez no Salmo Messiânico 109 versículo 4 profetizando a vinda do Messias dizendo: Jurou o Senhor e não se arrependerá: “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec”; e não fosse chamado segundo a ordem de Aarão? Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei; e, S. Paulo Apóstolo na epístola aos Hebreus  7, 1-10  lembra  os  hebreu  que  maior  que  o  sacerdócio  dos  levitas  é  o

1.4. A Tonsura Clerical.

            Outra inovação eclesiástica digna de nota é a tonsura. Até o século IV os clérigos não usavam sinal algum que os distinguisse dos leigos.

            Foram os monges a introduzir o costume de cortar os cabelos, símbolo de penitência. No Oriente, prevaleceu o uso de cortá-los na fronte: a chamada tonsura de S. Paulo. Entre os latinos, em forma de círculo, na nuca: a tonsura de S. Pedro ou coroa de Cristo. Os monges irlandeses faziam um círculo sobre as orelhas.

            Desde o século V também o clero secular adotou a tonsura ou coroa como sinal distintivo da ordem eclesiástica. Não havia ainda o uso do hábito talar ou batina.

            Tanto o celibato como a tonsura são leis eclesiásticas. Sujeitas, pois, a mudança ou supressão por parte das autoridades da Igreja. Dificilmente, porém, o celibato será opcional ao clero, sendo ab-rogado na Igreja ocidental.

            Meio extremamente útil para defender e amparar os sacerdotes contra os perigos do mundo foi à introdução da vida comum. À semelhança dos mosteiros, os diversos clérigos da mesma diocese começaram a viver em comunidade. Remonta ao século IV o canto do Ofício Divino em comum, reunindo em torno de si os próprios clérigos, sob uma regra.

2. O ESPLENDOR PATRÍSTICO:

            O período dos séculos IV e V são designados pelos autores eclesiásticos como a época áurea da patrologia. É a era dos santos por excelência.

            Imensa, a riqueza teológica por eles legada.

            Merecem relevo, entre os principais vultos do Oriente, os Ss. Padres Orientais:

            S. Atanásio, designado por S. Gregório Nazianzeno “Coluna da Igreja”, autor de inúmeras obras contra os arianos. Expôs em forma científica a doutrina da Ss. Trindade ou Tríade.

            S. Basílio de Cesaréia na Capadócia, cognominado, o Grande, autor de uma obra “Sobre o Espírito Santo”. Teve parte notável na organização litúrgica. Escreveu duas regras monásticas, que lhe valeram o título de Pai do monacato oriental. Sua importância é paralela à de S. Bento no Ocidente.

            S. Gregório de Nissa, “O Demóstenes Cristão”, celebrizou-se pelas orações e discursos sacros.

            S. Gregório de Nazianzo, místico de valor, deixou tratados exegéticos e homilias.

            S. João, conhecido como “Boca de Ouro” ou “Crisóstomo”, escreveu uma obra  Sobre  o   Sacerdócio”,  traduzida   em  diversas   línguas   modernas.                S. Cirílo de Alexandria, intrépido defensor da maternidade divina, distinguiu-se na exposição do dogma cristológico.

            S. Afrém no Oriente e/ou S. Efrém no Ocidente, “O Profeta dos Sírios”, “Cítara do Espírito Santo” por suas poesias religiosas. É o cantor da Virgem Santíssima.

            Também o Ocidente apresenta nomes ilustres.

            Hilário de Poitiers, “o Atanásio do Ocidente”, intrépido lutador contra o arianismo. Deixou doze livros “Sobre a Ss. Trindade”, obra prima de literatura.

            S. Ambrósio, bispo de Milão, além de inúmeras homilias e obras de ascética, compôs diversos hinos, entre os quais o “Exsultet Pascoal”. O “Te Deum”, embora designado como hino ambrosiano, não é de sua autoria.

            S. Jerônimo distinguiu-se pela potente tradução latina da Bíblia, conhecida sob o nome de Vulgata. Texto usual ainda hoje na Igreja ocidental, à exceção feita do livro dos Salmos. A Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia acolhe as traduções do Pechitto (siríaca: IV a.C. a II d.C.), da Septuaginta (hebraica: 240 a.C. a 70 d.C.) e a vulgata (latina: 384 d.C. a 404 d. C.).

            S. Agostinho, bispo de Hipona, o maior pensador da Igreja antiga. Deixou-nos inúmeras obras. Duas delas ultrapassam o âmbito da literatura eclesiástica e pertencem à literatura universal: “As Confissões” e “A Cidade de Deus”.

            Poucas épocas da história da Igreja contam com tantos santos e doutores.

            A santidade é um dos sintomas mais expressivos da vitalidade cristã de uma época: “A árvore boa se conhece pelos bons frutos”.

            Além dos monges e doutores santos já recordados, há belos exemplos de santidade feminina: Stª Helena, mãe de Constantino; Stª Pulquéria, esposa do imperador Marciano; Stª Clotilde, esposa de Clóvis.

            Tal pujança de santidade está a demonstrar com evidência a fecundidade do sangue dos mártires.

3. “CURVA TUA FRONTE, SICAMBRO ALTIVO!”:

            Viva Cristo, que ama os francos!” lê-se no prólogo da lei sálica do ano 555.

            Quando os povos germânicos ultrapassaram as fronteiras do Império e se estabeleceram no Ocidente, foram os francos os primeiros a abraçar a fé cristã. Por essa razão histórica a França é designada como “Filha primogênita da Igreja Ocidental”.

            A conversão desse povo, em fins do século V, é expressão do ardor missionário da época. Fato de importância excepcional. Enquanto os demais povos germânicos permaneciam sob a influência do arianismo ou sob o paganismo, estes professavam o catolicismo.

            S. Clóvis converteu-se por obra da rainha Clotilde e do bispo S. Remígio. Foi batizado em Remos, no Natal de 496, com mais trezentos guerreiros. “Curva tua afirmar a igualdade de presbítero e bispo não ajudou a boa evolução da doutrina da colegialidade no plano diocesano.

            Mais tarde, a linha doutrinária de S. Jerônimo foi apresentada por S. Isidoro de Sevilha em suas famosas “Etimologias”, chegando à Escolástica através de Pedro Lombardo. Continua-se afirmando que a ordenação não consiste em poderes recebidos pessoalmente, mas sim em ser agregado ao presbitério.

            A outra corrente doutrinal proveio de S. Epifânio (Cf. S. Epifânio, in: Los Santos Padres, Tomo I, p. 505), tendo tomado impulso na famosa obra do Pseudo-Dionísio Areopagita, a qual, como se sabe, exerceu grande influência na Escolástica (Cf. Areopagita Pseudo-Dionísio, in: Los Santos padres, Tomo I, p. 568).

            Segundo esta corrente doutrinária, oposta à primeira, todos os poderes residem no bispo e dele derivam para os presbíteros, criados para suprir a insuficiência daquele. Portanto, segundo esta teoria, os presbíteros em relação ao bispo não funcionariam em regime colegial, mas teriam apenas um papel subsidiário. Com esta doutrina, o monarquismo episcopal atingiu seu clímax. E assim esta segunda corrente acabou por obscurecer totalmente a primeira: na Escolástica, no Direito Canônico e na teologia posterior da Igreja até o Concílio Vaticano II.

13. VESTIGIOS DA COLEGIALIDADE PRESBITERAL.

            Apesar do obscurecimento da colegialidade presbiteral a partir, como vimos da dispersão dos presbíteros, o presbitério, porém perseverou no grupo de sacerdotes que ficou na cidade com o bispo, dando origem mais tarde, na Idade Média, ao cabido catedrático.

            O cabido catedralício é, sem dúvida, o herdeiro histórico do antigo presbitério, tendo atingido o seu apogeu nos séculos XI e XII, atuando de fato como colaborador e conselheiro do bispo para o governo pastoral. Os cônegos (verbete:Padre secular” pertencente a um cabido e com obrigações religiosas numa sé) participavam na eleição do bispo, na provisão dos benefícios de sua Igreja Diocesana, e até podiam impor penas eclesiásticas; era necessário o seu consenso nas questões referentes à alienação de bens, para a destituição dos abades e outros dignitários eclesiásticos.

            Tal poder decisório do cabido para determinados casos acabou criando dificuldades e monarquialidade. O bispo então passou a criar novos auxiliares à margem do cabido; e assim foram surgindo alguns outros personagens da cúria ou mitra diocesana, com tendência para uma nova estrutura de governo diocesano. Assim, salvo no caso da sede vagante, o cabido, de certo modo, acabou confirmando à catedral, com funções rituais e posição quase meramente honorífica até os dias de hoje. É, no entanto necessário notar que, mesmo já segundo o CIC, em algumas decisões a tomar no governo ordinário  de  diocese,  o  consenso  dos  membros   do

seu cargo” (Cf. Hipólito de Roma, Tradição Apostólica, p. 43). Esta posse comum do Espírito liga intimamente o bispo e o presbítero, formando um todo individual. É a dimensão colegial do sacerdócio dos presbíteros.

            A palavra “presbyterium”, no sentido coletivo, é encontrada cinco vezes na Tradição Apostólica de Hipólito, a saber: duas vezes na eleição e consagração dos bispos; uma vez na celebração da Eucaristia; uma vez na ordenação dos presbíteros e uma vez na ordenação dos diáconos. Os presbíteros são, geralmente, apresentados no plural e agem em grupo. Colocados à sombra do bispo (monarca) o seu papel parece modesto. Mas, ao contrário, sua unidade e ligação com o bispo são expressas claramente no ato litúrgico. Eles ajudam o bispo na administração do batismo; impõem as mãos com o bispo sobre as oferendas eucarísticas e sobre os presbíteros ordenados, enquanto que o bispo como presidente do presbitério interpreta e reza uma oração adequada ao momento. A atitude silenciosa dos presbíteros não significa que o bispo seja o único realizador do sacramento, mas exprime a estrutura comunitária dos membros da hierarquia. Isto é salientando de maneira explicita na ordenação dos presbíteros, em oposição à dos diáconos. Na ordenação dos diáconos somente o bispo impõe as mãos sobre eles e não os presbíteros. Hipólito explica que os diáconos não fazem parte como os presbíteros, nem participam do sacerdócio.

            Assim, o presbítero em Hipólito de Roma, como de resto todo o clero, tende, de grupo teologicamente estruturado, a se tornar igualmente um grupo sociológico.

            Esta linha doutrinária de Hipólito de Roma, linha tradicional apostólica da colegialidade presbiteral, teria talvez melhor prosseguido no século IV e seguinte se S. Jerônimo, com suas idéias acentuadamente presbiterianas, não tivesse perturbado a idéia de colegialidade ao nível do grupo bispo-presbíteros com sua opinião da igualdade de presbíteros e bispos. Escrevendo sobre as relações entre episcopado e presbiterato, S. Jerônimo cita Filipenses 1,1 e Atos dos Apóstolos 20,17-18, e opina que o episcopado monárquico não é “iuris divini”, mas foi introduzido por lei da Igreja, para impedir, sobretudo o perigo da divisão nas comunidades. A preeminência dos bispos repousaria, portanto, “magis consuetudine quam dispositionis dominicae veritate” e “idem est ergo presbyter qui et episcopus” (Tt. 1,5); não obstante, unicamente o bispo tem o poder (Cf. San Jerônimo, Cartas, vol. II, 146, 1, p. 805) de conferir a Ordem (“Ordinatio”), e os bispos são os sucessores dos apóstolos.

            As idéias acentuadamente presbiterianas de S. Jerônimo foram consideradas como um desviacionismo, devido à mentalidade monarquista predominante em sua época. Na realidade, porém, enquanto ressalvava que o episcopado monárquico não era “de direito divino”, mostrava que a forma de governo  das  Igrejas  particulares    havia  sido  colegial;  mas  enquanto  tendeu  a

fronte, sicambro altivo. Queima o que adoraste, adora o que queimaste” – frase lendária de S. Remígio designa bem o significado do batismo do chefe franco.

            Foi um grande passo. “Vossa fé é nossa vitória”, escrevia-lhe o arcebispo de Viana em carta de congratulações. Ao lado dos outros príncipes pagãos ou arianos, S. Clóvis afigurava-se aos católicos ocidentais como corifeu e protetor da religião latina.

            Preparavam-se os francos remotamente para a missão que lhes seria confiada nos tempos de Carlos Magno: defender e amparar o pontificado romano.

4. A ILHA DOS SANTOS:

4.1. A Irlanda.

            Ao contemplarmos hoje o mapa da Europa, deparamos com uma pequena nação onde o cristianismo se radicou de forma excepcional. As perseguições de vários séculos não o conseguiram abalar. É a Irlanda, designada, não sem razão, “Ilha dos Santos”.

            Em 431, o grande papa Celestino I enviou Paládio, como primeiro bispo, àquela ilha, jamais conquistada pelos romanos. Iniciou-se a obra de evangelização.

            A conversão total foi obra de S. Patrício, patrono da Irlanda. Formado no mosteiro de Lerino, trouxe para a ilha todo o ardor monacal e apostólico. De fecundidade extraordinária seus trinta anos de trabalho. Morreu em 461. De ora em diante a Irlanda conservar-se-á sempre cristã.

            Multiplicaram-se os mosteiros.

            A evangelização e a organização cristã e monástica prepararam a fase sucessiva, em que os irlandeses se lançaram na evangelização da Europa.

4.2. Processo de Canonizações nas Igrejas Primitivas.

            É interessante percebermos a trajetória histórica das canonizações nos diversos ritos, sobretudo na Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia.

            O processo de canonização dos santos, nos períodos da Igreja Primitiva até o século V é reconhecido como universais nas diversas tradições, pois, fazem parte do patrimônio histórico-eclesial.

            A partir do século V (431 – 451), a Igreja Ortodoxa de Rito Siríaco reconhece todos os santos canonizados neste período. Não são reconhecidos como universais os santos canonizados nos séculos V – XI (451 – 1054) pelos Ortodoxos de Rito Bizantino.

            Por uma PENTARQUIA (Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Roma), ou seja, os cinco patriarcados mais importantes da época, os santos canonizados no século V (431 – 451) são reconhecidos como universais, sendo cultuados nas Igrejas de Rito Siríaco, Bizantino e Romano.

            As canonizações realizadas a partir do século XI (1054) são exclusivamente reconhecidas pela Igreja de Rito Romano, logo, não faz parte do rol dos santos cultuados e nem aceitos pelas Igrejas de Ritos Orientais.

            O Patriarcado Ortodoxo de Moscou-Rússia reconhece as canonizações feitas nos séculos V – XI (431 – 1054) como universais. De lá para cá, se furta no direito de canonizar seus próprios santos. E não aceita as canonizações de Roma.

5. O ÚLTIMO DOS PADRES ORIENTAIS:

            Mais ou menos a par da cultura do clero ocidental está a do clero grego, russo, ucraniano, sírios e outros. Talvez mesmo, um pouco superior.

            O Sínodo de Nicéia de 787 exigia do candidato ao Ofício Episcopal o conhecimento completo do Saltério, dos Sagrados Cânones, do Evangelho, do Apóstolo (livro de textos litúrgicos). Preparação para a Leitura da Sagrada Escritura. Vida conforme os preceitos divinos e de edificação ao povo.

            Com a vitória e afirmação da dinastia siro-isáurica, cessam em parte as agitações políticas do período precedente. Infelizmente os imperadores tomaram partido em favor da iconoclastia, renovando assim as lutas religiosas.

            No século VIII, a Igreja Grega apresenta uma grande figura de teólogo: S. João Damasceno, considerado o último dos padres orientais.

            Escreveu várias obras em defesa do culto das imagens. Deixou também um tratado teológico: “Fonte da Ciência”. Exposição do dogma cristão baseada nos padres e nos concílios, verdadeira obra-prima. É ainda hoje a obra clássica da teologia oriental. Foi traduzida diversas vezes para o latim nos séculos XII e XIII. Muito apreciada pelos grandes teólogos da escolástica.

            Merece relevo no século IX a figura de Fócio, patriarca de Constantinopla. Deixou, entre outras obras, uma espécie de história da literatura cristã: “Mirion-bíblion”.

            Após o século IX, o pensamento grego cristão entra em fase de estagnação e decadência.

CAPÍTULO II

OS GRANDES CENTROS DE FORMAÇÃO UNIVERSITÁRIA

6. DIFUSÃO DAS UNIVERSIDADES:

6.1. As Universidades.

            O surto das universidades na época em que vivemos é deveras extraordinário. São os grandes centros de difusão da ciência e da cultura atual.

            Sua origem remonta ao século XII.

            S. Cipriano, considerado o Doutor do Episcopado, porque afirmou que os poderes de governo estão fundados na lei divina e que o bispo resume em si toda a Igreja (Cf. San Cipriano, Obras, Cartas 66, VIII, p. 629), manteve, no entanto correspondência com o presbítero romano. No ano 250 escreveu aos seus presbíteros e diáconos para lhes participar que, por necessidade urgente, ordenou um subdiácono e um leitor, mas que não o fez exclusivamente por conta própria, mas pôs em prática o que havia sido “decidido por todos”.

            Como se vê, mesmo nesta fase quando o papel do bispo sobressai, o presbitério que lhe está associado continua vivo e atuante.

            Pelos meados do século III, diz-se nas “Didascalia Apostolorum” que também os presbíteros devem ser considerados como tipo dos apóstolos.

            Em algumas Igrejas estabelece-se até que os presbíteros têm que ser 12 em memória dos apóstolos.

            Todavia, o fato histórico que contribuiu decisivamente para rebaixar o papel do presbitério e para enfraquecer progressivamente a colegialidade presbiteral foi, sem dúvida, a dispersão material do presbitério, depois da famosa Paz Constantiniana.

            As comunidades cristãs viviam até então nas cidades, e assim o presbitério vivia agregado em volta do bispo e ligado a ele. Fora, nas aldeias (“pagi”), estavam os pagãos. Quando o Cristianismo se propagou para as aldeias, surgiu então o problema de anexar à unidade sobrenatural e visível da Igreja Diocesana essas comunidades longínquas e dispersas. Houve esforços no sentido de se procurar manter, enquanto possível, sinais exteriores de unidade, como por exemplo: a multiplicação dos bispos na África. Contudo o imperativo geográfico acabou por impor-se: o presbitério dispersou-se porque os presbíteros eram enviados pelo bispo para proclamar a Palavra e celebrar a Eucaristia e os Sacramentos nas comunidades distantes da sede. Com a dispersão dos presbíteros, surgiram então os chamados “presbíteros titulares” de pequenas igrejas locais, que faziam parte do presbitério, ratificando para toda a posterior história da Igreja a subordinação hierarquia dos presbíteros e a monarquialidade absoluta do bispo diocesano, inserida no contexto do Império Romano (Cf. Reis, Igreja sem Cristianismo ou Cristianismo sem Igreja?, p. 283). A partir de então, o conceito colegial do presbitério entrou numa fase de lento, mas fatal obscurecimento.

12. AS DUAS CORRESNTES.

            Nos séculos IV e V, se desenvolveram e explicitaram duas correntes distintas e contrastantes legadas pela Tradição.

            A primeira corrente, mais antiga, proveio da chamada Tradição Apostólica de Hipólito de Roma (inicio do século III), a qual estabeleceu a unidade de ordenação de bispos e presbíteros, “por causa do Espírito comum  e  semelhante  do

            As idéias episcopais de S. Inácio não são ainda comuns no seu tempo. Sua linguagem incisiva se explica pela defesa que faz contra a heresia gnóstica.

            No ano 197, S. Policarpo de Esmirna, um dos destinatários das Cartas de S. Inácio, escreve aos filipenses uma carta na qual não figura o posto especial de bispo. O principio da carta diz assim: “Policarpo e os que com ele são presbíteros à Igreja de Deus que peregrina em Filipos” (Cf. Ignace D’Antioche Et Polycarpe de Smyrne, Lettres, Martyre de Polycarpe, Paris, editions Du Cerf, 1969, p. 177). Não se faz menção do bispo, mas apenas se exorta a obedecer aos presbíteros e diáconos, donde se conclui que, em Filipos, ainda continua vigorando o puro regime colegial.

11. A COLEGIALIDADE PRESBITERAL NO SÉCULO III.

            No século III, porém já aparece claramente destacada a função do bispo como cabeça do presbitério, dotado de poderes pessoais de governo com independência daquele. Os testemunhos mais explícitos procedem das Igrejas da África [S. Clemente de Alexandria, Tertuliano, S. Cipriano] (Cf. Vilela, La Condition Collégiale des Prêtres au IIIe siècle). O episcopado coletivo desaparece totalmente. Por sua vez, aumentam as reservas episcopais, isto é, as funções que correspondem ao bispo a título pessoal como sucessor dos apóstolos, em determinada situação histórica.

            Ao mesmo tempo, afigura da Igreja Local ou Particular se torna definida e autônoma, embora vinculada pela “communio” às demais igrejas ou comunidades vizinhas. Expressão desta comunhão são sobretudo as reuniões sinodais e a participação dos bispos da província na sagração de um bispo. Salienta-se então a figura do metropolita como centro da unidade regional; as sedes são fixas e adscritas a cidades determinadas, chegando-se até a proibir a elevação à diocese de novas cidades, a nomeação dos bispos por toda a vida bem como a transferência destes de uma sede para outra (Cf. Garcia Barberena, Colegialidade no plano diocesano: o presbiterado ocidental, p. 17-18).

            Todavia, apesar de tais mudanças rumo a uma monarquização da Igreja, baseada nos esquemas jurisdicionais, políticos e administrativos do Império Romano, a colegialidade presbiteral não desapareceu. A leitura do estudo aprofundado de Albano Vilela, através das Igrejas mais importantes da época, permite-nos concluir que os presbíteros do século III, considerados co-presbíteros do bispo unidos pelo mesmo sacerdócio, formavam um grupo compacto e estruturado. No meio urbano do cristianismo daquele tempo, havia pouco lugar para o exercício individual do sacerdócio. E o presbitério permanecia fortemente ligado ao povo de Deus com poucas exigências institucionais. Os fiéis participavam dos assuntos da Igreja e exerciam um papel ativo na eleição dos presbíteros e na eleição do bispo (Cf. Vilela, La Condition Collègiale dês Prêtres au IIIe siècle, p. 61-65).

            No período carolíngio, toda a formação cultural era ministrada nas escolas dos mosteiros, abadias e catedrais.

            Com a decadência subseqüente da desagregação feudal, tais escolas foram em grande parte descuradas e abandonadas.

            Por outro lado, o surgir e o desenvolver-se das cidades apresentava problemas novos para a cultura.

            Em fins do século XI e inícios do seguinte vários estudiosos, principalmente em París e Bolonha, começaram a exercer em modo independente a própria profissão de magistério. O passo decisivo foi dado em París no século XII. Mestres das disciplinas fundamentais: teologia, direito, medicina e filosofia se uniram em corporação para defender os interesses de classe, obtendo aprovação civil e eclesiástica.

            O nome “universidade” designava de início quer a associação dos professores (os docentes), quer a organização dos estudantes (os discentes) em nações, quer a corporação dos alunos e professores juntos.

            Em modo semelhante à de París, formaram-se espontaneamente as universidades de Bolonha e de Oxford.

           

6.2. A Sorbona.

            Para proteger os alunos dos perigos morais e para sustentar os estudantes pobres, instituíram-se bolsas de estudo, colégios e pensionatos.

            Em nível de conhecimento, a Eparquia Ortodoxa de Goiânia, em Aparecida de Goiânia tinha nas suas origens o Educandário Cinderela que tomava conta de mais de 200 crianças por Dom José Faustino Filho (Pe. Zezinho) e Mons. Ruberval Vieira de Holanda, no St. Garavelo; e no Distrito Federal temos no Núcleo Bandeirante, o Educandário Nossa Senhora do Monte Serrat administrado pelo Arcebispo Primaz, Dom Leolino Gomes Neto e outras obras sociais.

            A mais importante fundação desse gênero foi a de Roberto de Sorbon, capelão da corte de Luiz IX, em 1257. Do nome do fundador passou a chamar-se “Sorbona”.

            Desde o século XVI esse nome se estendeu a toda a faculdade teológica. Hoje compreende toda a universidade de París.

            Muitas outras universidades foram fundadas no século XIII. S. Gregório IX criou em 1229, a de Tolosa. Ferdinando III de Castela, a de Salamanca, em 1243. Frederico II, a de Nápolis.

            Todas as universidades do século XIII, exceto a de Oxford, pertenciam aos países latinos. Só no século seguinte se difundiram na Alemanha e nas nações nórdicas.

            Prevaleceu nesses institutos o caráter eclesiástico. Sua criação e o conferimento da faculdade de magistério em todo o mundo eram exclusivamente do papa, para a Igreja Latina, supremo guarda da doutrina e do ensino.

            Entre as disciplinas cabia a precedência à teologia. Os mestres, em máxima parte, clérigos. Soleníssimas, as festas dos santos protetores.

            As universidades são um dos mais belos produtos da cultura superior medieval. Expressão visível domínio da Igreja no mundo intelectual.

            París e Bolonha, os dois centros mais célebres. París, principalmente pelo estudo da teologia e da filosofia. Bolonha, pelo direito.

            Em 1129 os dominicanos conseguiram cátedra na universidade de París. Os franciscanos, em 1131.

           

6.3. O Pai da Escolástica.

            Ao desenvolvimento cultural filosófico e teológico do século XI ao XIII dá-se o nome de Escolástica. Como o próprio nome indica, a nova ciência surgiu principalmente das exigências do ensino. Não é fácil definir a escolástica. Numa simplificação talvez demasiada da história, pode-se afirmar que tem por finalidade a elaboração de uma completa visão filosófico-teológica, de uma concepção unitária do mundo. Fé e ciência, razão e religião apresenta-se em síntese harmônica.

            Essas construções unitárias são designadas como sumas ou sentenças, já comparadas às cátedras góticas da época.

            Desde fins do século XI desenvolve-se na França a escolástica primitiva. Em seu fundamento filosófico apresenta um cunho platônico-agostiniano.

            “Pai da Escolástica” é considerado Anselmo de Aosta, depois arcebispo de Cantuária.

            O principal filósofo do século XII é Pedro Abelardo. O principal teólogo, Hugo de são Vítor.

            Relevo especial merece também Pedro Lombardo, cognominado o “Mestre das sentenças”.

            O século XIII assinala o apogeu da escolástica.

            Predomina o realismo moderno. Fundamento principal, a doutrina aristotélica.

            Alberto Magno e S. Tomás de Aquino purificam Aristóteles das intromissões racionalistas. Interpretado em sentido cristão, torna-se uma autoridade decisiva.

            A antiga orientação, baseada em Platão e Agostinho, perde terreno.

6.4. Os Quatro Grandes.

            Quatro grandes doutores estão no apogeu da escolástica. Dois franciscanos e dois dominicanos, dos quais, dois italianos e dois anglo-saxões.

restabelecimento da unidade, pelo que se deve supor que em Corinto dirigia a Igreja um presbitério colegial (Cf. Ib.).

            Também, no final do século I, surgem as Cartas de S. Inácio de Antioquia a diversas Igrejas, escritas durante a sua viagem a Roma, a caminho do martírio. Nesses escritos começaram se observar certa evolução com respeito à época apostólica, visto que neles já emerge a figura do bispo distinta do presbitério e destacada dele: “Não há senão um bispo com o presbitério e os diáconos”, diz S. Inácio aos fiéis de Filadélfia (Cf. S. Inácio de Antioquia, “... um é o bispo, junto com o seu presbitério e diáconos...”, Carta aos Filadélfios, 4, p. 72).

            Em suas Cartas, S. Inácio fala sessenta vezes de bispos e vinte e duas de presbíteros (Cf. Arns, Paulo Evaristo [Card.], in: S. Inácio de Antioquia, Cartas, p. 19).

            Todavia, estes dados são compensados com outras frases freqüentes no epistolário inaciano, que indicam a continuidade do regime colegial; frases em que se atribui presidência (Cf. S. Inácio de Antioquia, “... sob a presidência do bispo em lugar de Deus e dos presbíteros em lugar do colégio dos apóstolos e dos diáconos...” Carta aos Magnésios, 6, p. 52 [o grifo é nosso]), se pede obediência semelhante ao bispo e ao presbitério (Cf. S. Inácio de Antioquia, “... reunidos em uma só submissão, sujeitos ao bispo e ao presbitério, vos santifiqueis em todas as coisas”. Carta aos Efésios, p. 41).

            Na concepção de S. Inácio de Antioquia os presbíteros de uma Igreja determinada formam um colegiado com o bispo, muito embora tal colégio não seja formado de elementos com iguais atribuições, pois, como vimos, o bispo destaca-se no seio do presbitério.

            No ofício litúrgico, os presbíteros ficavam em torno do bispo e se sentavam junto dele. Concelebravam (e/ou Co-presidem) e consagravam a Eucaristia com o bispo. “O bispo é a harpa, o presbitério são as cordas” (Cf. S. Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios, 4, 1, p. 41). “Todos, sem exceção, devem obedecer ao bispo, como Jesus Cristo obedece ao Pai; todos devem obedecer aos presbíteros como os apóstolos...”. “Que ninguém empreenda seja o que for que diga respeito à Igreja sem bispo; a única Eucaristia autêntica e digna de confiança é a que se celebra sob a presidência do bispo ou daquele que por ele foi delegado. Onde o bispo aparecer, aí estará também à comunidade, do mesmo modo que a Igreja Católica está onde estiver Jesus Cristo. Sem o bispo, não é permitido batizar nem celebrar a Eucaristia. Tudo o que ele aprova é também agradável a Deus; e assim tudo o que fizer está seguro e legítimo. No mais, é razoável voltarmos ao bom senso, e convertermo-nos a Deus, enquanto ainda for tempo. Bom é tomarmos conhecimento de Deus e do bispo. Quem honra o bispo será também honrado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo presta culto ao diabo (Cf. S. Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses, 8, p. 81).

Tiago. Todavia, em 1Pd. 5,1, o Apóstolo Pedro se declara ancião (presbyteros) com os anciãos das Igrejas do Ponto, da Galácia, da Capadócia, Ásia e Bitínia.

            Por ocasião da primeira grande controvérsia sobre o valor da Circuncisão, os apóstolos e presbíteros aparecem como instância competente e decisiva para a Igreja Universal. Todos se reuniram em Jerusalém para decidirem colegialmente, à luz do Espírito Santo, sobre a questão. Foi o 1º Concílio da História da Igreja: o Concílio Apostólico de Jerusalém (Cf. At. 15,4).

            Uma das hipóteses levantadas pelo teólogo suíço Hans Küng é a de que a identidade dos títulos de presbíteros e bispos seria explicável devido talvez à semelhança das funções desempenhadas por presbíteros e bispos (Cf. Küng, A Igreja, II, p. 221).

            Outra hipótese: o título de bispo ter-se-ia tornado comum nas comunidades paulinas (Cf. Ib., p. 222). Visando a unidade da Igreja e a resistência às heresias, Lucas teria introduzido o termo bispo atribuindo aos presbíteros chefes de Igrejas das comunidades paulinas de cultura grega uma igualdade com os presbíteros no sentido judaico-cristão, harmonizando assim as duas tradições.

            Teria havido, portanto uma espécie de fusão do sistema paulino-pagão-cristão com o sistema palestinense, resultando daí a confusão ou ambigüidade dos títulos de epíscopos e presbyteros.

            Nas cartas pastorais, se exige maior reverência para com os presbíteros que desempenham bem sua tarefa presidencial – os que se afadigam no ministério de presidir e ensinar (Cf. 1Tm. 5,17). Ora, segundo a 1Tm, presidir e ensinar é função que compete aos bispos, entretanto, cabe-lhe a administração geral da comunidade (Cf. 1Tm. 3,2 e 5). Daí se conclui que só alguns destes presbíteros atuariam como bispos. Assim, pouco a pouco, os bispos foram se tornando cada vez mais distintos dos presbíteros. Convém não esquecer, porém, que os testemunhos neotestamentários mais antigos fazem sempre referência a uma pluralidade de bispos ou de presbíteros que desempenhavam colegialmente o seu ministério.

10. TESTEMUNHOS DOS PADRES DA IGREJA SOBRE O PRESBITÉRIO.

            Em fins do século I temos a famosa Carta de S. Clemente Romano aos Coríntios, escrita com o objetivo de conter a rebeldia dos fiéis contra o seu presbitério. Não está escrita de bispo para bispo, mas sim de Igreja para Igreja: “A Igreja de Deus que tem sua residência transitória em Roma à Igreja de Deus com residência transitória em Corinto...” (Cf. S. Clemente Romano, Carta aos Coríntios, p. 19). Nela se exorta à obediência, para que na caridade resplandeça a unidade, porque os bispos, ou presbíteros são os sucessores dos Apóstolos. Não vemos nela nenhuma alusão ao bispo monárquico, cuja omissão seria inexplicável num documento   em  que  a  idéia  predominante  e  a  finalidade  do  escritor  são  a   do

           

            Alexandre de Hales, inglês de nascimento, é considerado o fundador da chamada escola franciscana antiga.

            Alberto Magno, dominicano alemão, é um dos homens de maior cultura no campo da filosofia, teologia e ciências naturais. Os contemporâneos o chamaram de “doutor universal”. Pio XI o proclamou doutor da Igreja.

            S. Tomás de Aquino, italiano da ordem dos pregadores, conduziu a termo, com sobriedade e método, a obra iniciada por Alberto Magno: a elaboração de um aristotelismo cristão.

            Apesar das oposições iniciais, a doutrina de S. Tomás de Aquino afirmou-se logo. Depois de S. Agostinho, nenhum mestre exerceu influência tão grande e tão profunda sobre a cultura religiosa católica.

            João XXII o canonizou em 1323. Pio V o proclamou doutor da Igreja. Leão XIII, patrono das universidades latinas.

            S. Boaventura, italiano de origem, é considerado o principal representante da antiga escola franciscana, orientado mais para Platão e Agostinho do que para Aristóteles. “Doutor Seráfico” é um teólogo especulativo de forte tendência mística.

            Ao lado da escolástica, também a mística teve grande desenvolvimento nesse tempo. Seu maior representante é Bernardo de Claraval, o maior pregador da Idade Média. Harnack o definiu “O Gênio Religioso do Século XII”.

            A mística especulativa é cultivada por Hugo e Ricardo de são Vítor.

            Também os grandes doutores são ao mesmo tempo grandes místicos.

6.5. Os Dois Gênios.

            S. Agostinho e S. Tomás de Aquino assinaram os dois pontos altos de toda a cultura cristã no Ocidente.

            S. Agostinho, cuja existência se coloca no ocaso do Império Romano, ilumina com seu gênio toda a Idade Média Cristã.

            S. Tomás de Aquino, cuja vida se situa no fim da Idade Média, é o farol que norteia o pensamento moderno cristão.

            Em S. Agostinho nota-se a intuição filosófica e teológica. É nisso que se manifesta sua genialidade.

            S. Tomás distingue-se pelas sínteses filosóficas e teológicas. É aí que se patenteia o seu gênio.

            No pensamento do bispo africano domina Platão, cristianizado por ele. Platônico de espírito, S. Agostinho pode ser considerado um dos grandes místicos do cristianismo.

            No frade dominicano domina o pensamento de Aristóteles, que ele “batizou”. Aristotélico de formação, S. Tomás tem consciência de sua vocação intelectual, e consagra toda sua vida a serviço da Verdade.

            O primeiro acentua o poder da vontade. O segundo põe em relevo a força da inteligência.

            O pensamento agostiniano, sem S. Tomás, seria demasiado místico. A síntese tomista, sem S. Agostinho, excessivamente racional.

            A expressão de S. Agostinho é mais espontânea, ocasional. Por isso mesmo capaz de gerar a falsas interpretações.

            A doutrina de S. Tomás é mais refletida, sistemática. Mais dura e árida talvez, mas de maior segurança na aquisição da verdade.

            S. Agostinho, sobretudo é um criador. A exposição católica do dogma da graça divina é em grande parte propriedade sua. Maravilhosa, a originalidade de suas intuições.

            S. Tomás é, sobretudo, um coordenador: Platão e Aristóteles, cultura helênica e cultura árabe, paganismo e cristianismo, é o imenso material que ele vai assimilar, recolhendo as parcelas de verdade dos diversos sistemas numa potente síntese.

            S. Agostinho e S. Tomás são dois gênios que se completam mutuamente. As duas correntes de pensamento deles derivados – agostinismo e tomismo – perduram ainda, com vitalidade perene.

           

7. PANORAMA GERAL DO SURGIMENTO DAS ESCOLAS TEOLÓGICAS ORTODOXAS:

           

            Os estudiosos não estão de acordo sobre a divisão da história da teologia ortodoxa. Segundo Jugie, não existem na teologia oriental escolas teológicas e sistemas que possam oferecer um “fundamentum divisionis” (Cf. M. Jugie, Theologia Dogmatica Christianorum Orientalium ab Ecclesia Catholica Dissidentium, Paris, 1926-1935, v. II, p. 18, nota). Segundo outros estudiosos, ao contrário, há razões de tempo, lugar e outros gêneros que justificam sua divisão em dois ou mais períodos. Neste primeiro momento dividiremos toda a história bimilenar da teologia oriental bizantina em sete grandes períodos:

            I. PERÍODO PATRÍSTICO (SÉCULOS I – VI);

            II. ERA DE JUSTINIANO (SÉCULOS VI – VIII);

            III. PERÍODO DE FÓCIO E CERULÁRIO (SÉCULOS IX – XIII);

            IV. PERÍODO DE GREGÓRIO PALAMAS (SÉCULOS XIV – XV);

            V. PERÍODO DA DIÁSPORA DEPOIS DA OCUPAÇÃO TURCA (SÉCULOS XVI – XVII);

            VI. ESCOLA DE KIEV (SÉCULOS XVII – XVIII);

            VII. RENASCIMENTO MODERNO (SÉCULOS XIX – XX).

9.2. O Presbitério no Novo Testamento.

            No tempo de Jesus, paralelamente aos conselhos locais de anciãos, havia o Sinédrio ou o Grande Conselho. É importante salientar que o Colégio dos Anciãos às vezes é chamado de “Presbytérion” isto é, presbitério (Cf. At. 22, 5 e Lc. 22, 66).

            O Sinédrio, sediado em Jerusalém sob a presidência do sumo sacerdote, constituía a mais alta instância da autoridade judaica, o mesmo tempo política e religiosa, sob o poder do controle romano. Os 70 membros do Sinédrio relembravam a assembléia dos 70 Anciãos no deserto (Cf. Nm. 11, 16-30). Eles se dividiam em três grupos principais: os membros das famílias sacerdotais, os escribas, e os leigos notáveis. São estes últimos os especialmente denominados anciãos. As famílias sacerdotais pertenciam, sobretudo, à corrente dos saduceus, enquanto os anciãos integravam a corrente dos fariseus. Esta ultima caracterizava-se pelo seu apego à tradição viva e pela aplicação escrupulosa da Lei. Um bom número de seus representantes eram escribas e doutores da Lei (Cf. Ricciotti, Vida de Jesus, p. 70).

            Nas colônias da dispersão (Diáspora) o governo da comunidade judaica (enquanto os judeus tinham direito de Cidadania) ou pelo menos o da sinagoga (e isto se sabe graças a algumas inscrições) ficava também nas mãos dos anciãos. O seu direito principal consistia em poder admitir novos membros da comunidade religiosa, e em excomungar (Cf. Lc. 6,22 e Jo. 9,22; 12,42; e 16;2).

            No Novo Testamento, encontramos a palavra ancião aplicada a autoridades cristãs (presbyteroi). Ancião indica sobretudo aqueles que governam as igrejas ou comunidades locais (Cf. 1Tm. 5,17).

            Nos textos neotestamentários não se pode distinguir com muita clareza o que se quer significar com os termos “epíscopos” e “presbyteros”; inclusive, Jesus Cristo é chamado de pastor e bispo (Cf. 1Pd. 2,25). Em Tito 1,5 não há distinção entre bispos e presbíteros. Também em Tiago 5,14. Os presbíteros aparecem em todas as comunidades e sempre no plural, com exceção das Epístolas Pastorais. Em 1Tm. 4,14, ao conjunto dos presbíteros chamam-se de presbitério. Estes bispos ou presbíteros ou presbíteros-bispos, na ausência do Apóstolo (que geralmente era itinerante) realizavam a Eucaristia e governavam a comunidade colegialmente. Era a colegialidade presbiteral da Igreja nascente. Vemo-la em At. 11,30 (Jerusalém). Segundo At. 14,23, os presbíteros são nomeados por S. Paulo em Icônio, Listra e Antioquia. O Apóstolo não faz distinção entre bispos e presbíteros. Todos são presbyteroi, isto é, chefes de comunidades.

            Faz-se, porém distinção entre apóstolos e presbíteros em At. 15,2, 4,6.22ss. Em At. 20,17-28, o Apóstolo Paulo se despede dos presbíteros de Éfeso, a quem o Apóstolo chama de bispos. Em At. 21,18 o Apóstolo Paulo, missionário itinerante, se reúne com os anciãos da comunidade cristã de  Jerusalém  em  casa  do  Apóstolo  S.

             

velho, ancião, idoso, o termo hebraico zaqén designa, sobretudo, uma instituição tradicional do Antigo Israel, os chamados anciãos (Cf. Ib.).

            O Pentateuco faz remontar esta instituição ao tempo de Moisés, o qual a teria instituído sob uma ordem expressa de Javé (Cf. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Verbete Ancião [I], Col. 71).

            Evidentemente, não é nosso objetivo aqui analisar em profundidade a organização dos Anciãos, a qual, ao menos em parte, a Igreja primitiva do Novo Testamento irá depois copiar.

            Convém notar, porém que, com a instituição da realeza ou monarquia, houve a tendência dos reis para um governo mais centralizado, diminuindo assim a autoridade dos anciãos. Todavia, mesmo assim os reis tiveram sempre que levar em consideração a opinião dos anciãos (Cf. 1Sm. 30, 26; 2Sm. 3, 17; 5, 3; 1Rs. 12, 6; 2Rs. 10, 6; 23, 1). Eles eram os seus conselheiros (Cf. 1Rs. 12, 6; 20, 7-9).

            Com a queda da monarquia e o exílio reforçou-se a importância dos anciãos, e foi em torno deles e dos sacerdotes que se organizou o judaísmo pós-exílio.

            Dois traços caracterizavam a instituição dos anciãos:

Eles eram membros de um colégio ou de uma Assembléia, e a palavra ancião, era quase sempre usada no plural (presbyteroi);

Eles estavam ligados a uma política determinada que eles representavam, comunidade de uma vila, tribo ou povo.

            Depois do exílio, segundo R. de Vaux, parece não ter havido mais de dois tipos de anciãos:

Os anciãos de uma vila, formando uma espécie de conselho municipal, e

Os anciãos da Nação, também chamados anciãos dos juízes, anciãos do povo, anciãos de Israel, ou ainda anciãos do país.

            Esses conselhos ou assembléias, locais ou nacionais, tinham certo poder legislativo e judicial; e entre os seus membros é que se elegiam os juízes e os delegados das missões oficiais.

            Anteriormente e próximo ao tempo de Jesus, a Literatura rabínica presume em cada vila um grupo de anciãos. A autoridade dos anciãos era ao mesmo tempo política e religiosa: eles exerciam o poder judiciário, e entre eles é que se elegiam os chefes das sinagogas. Este dado é fundamental. Pois ele explica, de modo decisivo, o fato de a comunidade adotar, por um processo de mimetismo, um tipo de organização semelhante para a direção de suas Igrejas ou comunidades locais.

I. PERÍODO PATRÍSTICO (SÉCULO I – VI).

            O primeiro período da teologia oriental coincide com o da teologia ocidental: é o período patrístico. Nessa época, as Igrejas do Oriente e do Ocidente ainda estão unidas, dando origem a um patrimônio teológico único, apara cuja formação contribui tanto os Padres Latinos (Tertuliano, Agostinho, Hilário, Ambrósio, etc.) como os gregos e outros ortodoxos (Orígenes, Clemente, Basílio, Gregório Nazianzeno e de Nissa, João Crisóstomo, etc.).

            Durante essa primeira fase da história da ciência sagrada, as principais características da reflexão teológica são as mesmas tanto no Oriente como no Ocidente.

            Ela tem caráter metodológico, a saber:

BÍBLICO: Inspiram-se diretamente nos textos sacros;          

APOFÁTICO: Coloca preferencialmente a ênfase na incognoscibilidade e na inefabilidade de Deus e dos seus mistérios;                                   

ASSISTEMÁTICA: Estuda os problemas que são impostos pelas circunstâncias, não se preocupando em abordá-los ordenamento em seu conjunto;

PLATÔNICO: Adota como instrumento conceptual a filosofia de Platão, aplicando à divisão entre mundo natural e mundo sobrenatural a ruptura que Platão coloca entre mundo sensível e mundo do inteligível.

            Essas características permanecem constantes em toda a história da teologia oriental e com o tempo tendem a se acentuar em favor do misticismo e do intuicionismo. Já na teologia latina, depois da época patrística, essas características se eclipsam pouco a pouco, cedendo lugar a características contrárias: menos contato com a fonte bíblica, preocupação catafática e sistemática, aristotelismo como instrumento conceptual. Daí ter ocorrido um progressivo afastamento entre as teologias oriental e ocidental durante a Idade Média e a época Moderna, um afastamento destinado a se aprofundar em virtude do cisma, até estender-se não só à forma, mas também ao conteúdo da deflexão teológica.

            “Os primeiros cinco séculos constituem a idade de ouro dos grandes Mestres, Padres e Doutores da Igreja, que transmitem às futuras gerações a herança da Paradosis, já formada em suas grandes linhas (Cf. P. Evdokimov, L’Ortodossia, Bolonha, 1965, p. 17). Os nomes inesquecíveis daqueles que mais contribuíram para a formação da teologia oriental são: Justino, Clemente, Orígenes, Atanásio, Cirilo, Basílio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa, João Crisóstomo, Nestório, o Pseudo-Dionísio.

II. A ERA DE JUSTINIANO (SÉCULO VI – VIII).

           

            Na era de Justiniano (527 – 565), os teólogos empenham-se na luta contra dois excessos: o monofisismo e o nestorianismo.

            A figura mais ilustre desse período é João Damasceno († 749), que supera a controvérsia através da explicação dos conceitos de natureza e hipóstase. Sua principal obra é o De Fide Orthodoxa, uma grandiosa síntese da tradição. Ela “encerra a era patrística e abre a época das cadeias enciclopédicas, em que a criação é substituída pelas citações e pelas justificações baseadas no consensus patrum”.

            Outro teólogo de primeira grandeza foi Máximo, o Confessor († 638), que em suas viagens e seus contatos em Jerusalém e Roma, sobretudo com Martinho I, combateu tanto o monofisismo como o monotelismo. O seu Florilegium revela visivelmente a influência do Pseudo-Dionísio e da filosofia neoplatônica, na qual S. Máximo vê “o meio técnico mais apropriado para exprimir a ortodoxia”.

            Durante a época justiniana foi que nasceu a famosa controvérsia do Filioque. Falando da Processão do Espírito Santo, o III Concílio de Nicéia (787) utilizara a fórmula “ex patre per filium”. Essa fórmula não foi recebida favoravelmente pelos teólogos ocidentais (por exemplo: Alcuíno) que nela viam ambigüidades e o perigo de que o Espírito Santo fosse considerado uma criatura. Daí a áspera e longa disputa, que, como é sabido, foi uma das principais causas da separação entre as Igrejas de Constantinopla e de Roma.

III. PERÍODO DE FÓCIO E CERULÁRIO (SÉCULO IX – XIII).

            Fócio é geralmente reconhecido por sua participação no cisma do Oriente. Mas freqüentemente são ignorados os seus méritos no campo teológico, muito embora tenha sido o maior cultor da ciência sagrada em seu tempo.

            O elemento que mais distingue a sua especulação teológica é o lugar absolutamente novo que nela ocupa a filosofia aristotélica. Ele utiliza a lógica do estagirita com grande habilidade para defender a validade do “per Filium”. Geralmente, interpreta a Sagrada Escritura em sentido histórico e literal. Tem grande estima pelos Padres da igreja (menos os latinos e João Damasceno), vendo neles os autênticos intérpretes do Evangelho. Antes da separação da Igreja latina (867), “não ensinou nada em contrário à fé da Igreja de Roma, mesmo ressaltando algumas diferenças nos usos litúrgicos e disciplinares. Então, Fócio admitia claramente o primado de Pedro” (Cf. V. Malanczuk, “Byzanti Theology, I (to 1500)” em New Catholic Encyclopedia, v. II, p. 1019). A ruptura com Roma foi de breve duração, devendo-se mais a razões disciplinares do que dogmáticas.

            No século X, a cena teológica é dominada pela figura de S. Simão, chamado o “Novo Teólogo”. Segundo Vladimir Lossky, ele merece amplamente tal título, porque foi ele quem impôs um novo rumo à teologia bizantina. Com efeito, ela, que         Energia e Vida, ambas sendo ilimitadas e invisíveis, foram somadas pelos mesopotâmios em uma única palavra – “ALOHO” - DEUS.

            E para representá-lo na imaginação dos homens, os mesopotâmios que eram os ancestrais dos assírios deram-lhe a imagem de homem, assim como representaram suas vozes com escrita pictografica (ou gravuras), qualificaram seu DEUS com diversas qualificações como pai, criador, onipotente, Todo-Poderoso, misericordioso, etc.

            Em sendo pai, ele tinha um filho que era enviado de tempos em tempos para salvar ou ajudar as criaturas de Deus. E em sendo deus, tinha um espírito cuja função era buscar aperfeiçoar a criação ou as novas criações.

            Passaram então os mesopotâmios a ter uma divindade trina composta de pai, filho e espírito cada qual com suas qualificações, a exemplo dos membros de uma família humana onde cada um tem a sua desinência, suas qualificações e onde todos almejam o sucesso de todos.

            A fórmula da divindade trina idealizada pelos mesopotâmios veio a tornar-se na célebre fórmula: TRÊS EM UM E UM NOS TRÊS.

            Além dos nomes e qualificações dadas pelos mesopotâmios às pessoas da trindade divina, definiram suas posições, desta forma, Assur ou Ashur ou ainda Atur, era o deus do princípio e ocupava o norte da Mesopotâmia; Marduk era o deus da Terra e dominava a Mesopotâmia central, já Haya ou Yah, deus da vida ocupava o sul da Mesopotâmia.

            A mente privilegiada dos mesopotâmios determinou seus sentimentos no direcionamento da compreensão da energia da vida existente na matéria, incluindo o homem, e aplicaram esta fórmula paterna de santíssima divina trindade em benefício da teoria da criação, vindo a transmitir esta teoria filosófico-teológica aos seus descendentes os assírios e as demais nações irmãs...

CAPÍTULO III

VISÃO SINÓPTICA DA COLEGIALIDADE PRESBITERAL NA HISTÓRIA DA IGREJA

9. ORIGENS DO PRESBITÉRIO:

9.1. Origem e influência judaica do presbitério segundo o Antigo Testamento.

           

            Pelos séculos, III e II, antes de Cristo, os judeus do Egito traduziram o Antigo Testamento do hebraico para o grego. Trata-se da chamada Versão dos Setenta. Muitas vezes eles traduziram o termo hebraico zeqenim para presbyteroi. Assim eles indicavam que os zeqenim da Palestina podiam ser comparados à instituição dos Presbíteros egípcios (cf. Lemaire, Les Ministères aux origines de L’Eglise,p. 22).

            O termo zaqén, isto é, ancião, do Antigo Testamento, era muitas vezes empregado num sentido técnico. Ao lado do empregado genérico com o  sentido  de

Igreja, São Jacob ou Tiago de Edessa (708 d.C.) com quem se encerrou a “Primeira Era Dourada” do progresso cultural e da literatura Siríaca Cristã; passando-se então para a “Segunda Era Dourada” que se enceraria no início do século XIV (1318 d.C.).

            A UNIVERSIDADE DE RAS AIN: foi fundada no quinto século do Cristianismo no Mosteiro de “Carcafto” às margens do rio Khabour, próximo de Hasaka, ao norte da Síria. Foi nesta escola que se formou um dos mais importantes filósofos da época Jorge de Ras Ain, que além de ser um grande médico era um orador eloqüente e, exímio autor.

            A ESCOLA DE QEN-NESHRIN (NINHO DAS ÁGUIAS): foi fundada no século IV por João Aftuniah (538 d.C.). Formou muitos autores de grande capacidade em diversas matérias como o Patriarca Atanásio I (631 d.C.), Tuma Harkali, o filósofo Severius Sabuk do sétimo século, que se notabilizou pelo conhecimento de ciência, matemática e astronomia. Severius Sabuk se notabilizou por introduzir o sistema indiano de figuras numéricas de 1 a 9 em todo o Oriente Médio e Ocidente; passando depois, tais algarimos, a ser conhecidos como algarismos arábicos.

            Finalmente registramos a UNIVERSIDADE DE MAR BARSAUMA, fundada na Malátia no final do sétimo século, e, que formou grandes autores como Jacob Bar Salibi (1117 d.C.), Teodoro Bar Wahbun (1197 d.C.), o Patriarca Miguel o Grande (1200 d.C.), o Patriarca Bar Maadani - poeta e filósofo, e, o incomparável Mar Gregório João Barhebroio (Barhebraeus - 1286 d.C.), além de muitos outros.

            Esta universidade continuou até o início do século XIV quando foi transferida juntamente com a Cátedra Patriarcal de Antioquia para o Mosteiro de Zaafaran (Deir Zaafaran) em Mardin, atualmente na Turquia.

            A partir do século XIV, os Siríacos Orientais (Nestorianos, Caldeus) e os Ocidentais (Surianis Ortodoxos e os Surianis Católicos), descendentes dos antigos assírios, sofreram perseguições dos invasores turcos otomanos e seus sucessores as tribos curdas, que destruíram muito da civilização assíria ou siríaca, quando, milhões de assírios foram mortos nas cidades e vilas invadidas e destruídas. “Esta destruição foi tão grande que desde então o Oriente Médio foi coberto por uma era negra...”

8.2. A Filosofia da Teologia Assíria.

            Durante os dez mil anos entre a última era de pedra e o dilúvio na Mesopotâmia, quando os habitantes desta região passaram do sistema de vida maternal para o sistema patriarcal, a vida humana passou a basear-se numa família formada de pai, mãe e filhos.

            O homem enquanto admirado observava o mundo ao seu redor, repentinamente em sua mente aguçada concluiu que deveria existir uma força ou energia de vida que movimentava ou administrava a massa ou matéria deste mundo ou de todo o universo.

             

antes tinha uma orientação essencialmente “cristológica”, passa a assumir uma orientação predominantemente “pneumatológica”: “Os problemas relativos ao ‘ESPÍRITO SANTO’ e a ‘GRAÇA’ são agora o núcleo central em torno do qual gravita o pensamento teológico” (Cf. V. Lossky, La Teologia Mística della Chiesa d’Oriente, Bolonha, 1967, p. 385).

            Nesse meio tempo, tornavam-se sempre mais tênues as relações de Constantinopla com Roma, em virtude das péssimas condições políticas em que se encontrava o Ocidente naquela época por causa das invasões dos húngaros, normandos e árabes. Por isso, quando Miguel Cerulário anatematiza o papa de Roma, em 1054, mais do que, criar uma situação nova, ele está apenas selando o estado de fato de uma separação que já perdurava há alguns séculos. O exemplo de Bizâncio foi depois seguido pouco a pouco por todas as igrejas de rito bizantino.

            Como Fócio, Cerulário também foi um dos maiores teólogos de seu tempo, tendo contribuído com seus escritos para escavar um fosso ainda mais profundo com a igreja latina. Em duas cartas, “Epístula ad Petrum Antiochenum” e “Epístula Leonis Achridensis”, bem como nos Panplia, acusa os latinos de se terem afastado da tradição apostólica nos seguintes pontos: os ázimos, o jejum do sábado, a abstinência, o rito do batismo, o culto das imagens, o filioque e o primado romano.

            Outro grande teólogo desse período foi Miguel Psellos (†1078), poeta, historiador e filósofo, além de teólogo. Como fócio, utiliza tanto a filosofia platônica como a aristotélica. Entre as suas doutrinas, as mais dignas de nota são: a processão “ex patre tantum”, certa substância material nos anjos, a santidade da Mãe de Deus no momento de sua concepção, a sua função medianeira.

            Psellos teve inúmeros discípulos de valor, entre os quais João Ítalo († 1084) e Teofilato, prelado da Bulgária († 1108).

            No século XIII, a teologia bizantina se polarizou em torno do Concílio de Lião (1274), que se propunha a restabelecer a união entre Constantinopla e Roma. Mas os esforços daqueles que procuravam dissipar as razões do conflito não tiveram êxito. Os resultados positivos do Concílio não foram bem acolhidos pelos monges e pelo povo e o cisma continuou.

IV. O PERÍODO DE GREGÓRIO PALAMAS (SÉCULOS XIV – XV).

            Por volta do fim da Idade Média, a teologia ortodoxa é dominada pela figura de Gregório Palamas († 1359). Escritor muito fecundo e original, Palamas efetuou uma síntese do pensamento patrístico na teologia da Glória de Deus. Suas teses mais características são três:

O homem não pode conhecer a essência de Deus transcendeste;

Porém, podem conhecer suas ações, suas operações, seus atributos;

Por isso, em Deus deve haver uma distinção real entre essência incognoscível e atributos cognoscíveis.

            Em 1351, a doutrina palamita foi canonizada pelo Sínodo de Constantinopla como a expressão mais autêntica da fé ortodoxa.

            Gregório Palamas teve numerosos discípulos, entre os quais Nilo Cabasilas († 1363), sucessor de seu mestre na cadeira de Tessalonica e autor, entre outras coisas, de Regula Theologica, De Causis Dissentionum in Ecclesia e De Papae Imperio, e Filóteo Coccinus († 1376), primeiro abade do monte Athos e mais tarde patriarca de Constantinopla, autor de um Encomium sobre Gregório Palamas.

            Mas Palamas também teve muitos adversários. Os mais dignos de nota são: Nicéforo Gregoras († 1360), que escreveu Onze Orações contra Gregório Palamas, e Prócoro Cydones († 1368), cujo nome está ligado, sobretudo às tradições em grego de S. Agostinho e S. Tomás. Do Aquinense, ele traduziu parte da Summa Theologiae e toda a Summa Contra Gentes.

            Durante esse período, nasceu a controvérsia em torno da EPICLESE (a oração que se dirige ao Pai depois da consagração, para que ele mande o Espírito Santo para transformar os dons divinos do pão e do vinho no corpo e no sangue do Salvador). A historiografia recente pode estabelecer que a fórmula “ea transmutans” foi introduzida na liturgia ortodoxa somente no século XV. De qualquer modo, a EPICLESE torna-se um novo motivo de discórdia com os latinos. Com efeito, enquanto estes afirmavam que a consagração ocorre no momento em que se repetem as palavras de Cristo “Ele tomou o pão”; “deu aos mesmos declarando”; “este é o meu corpo” e “Recebei e bebei. Este é o meu sangue”; “Eis porque a Tua Igreja...”, os ortodoxos sustentavam que, além dessas palavras, é preciso também a EPICLESE, ou então que a EPICLESE basta por si só

V. A TEOLOGIA DA DIÁSPORA (SÉCULOS XVI – XVII).

            Em 1453, quando os turcos ocuparam Constantinopla, a teologia ortodoxa recebeu um golpe mortal: as escolas teológicas foram fechadas, muitas bibliotecas foram destruídas, muitos teólogos foram exilados.

            Foi então que se constituiu a teologia ortodoxa da Diáspora.

            Essa teologia é marcada pelos sinais do ambiente em que se desenvolve: denota influência do catolicismo quando se desenvolve em países católicos e mostra influência do protestantismo quando se desenvolve em países protestantes. No início, obviamente, é mais forte a influência católica (dado que os protestantes nasceriam somente no século XVI), mas depois a influência protestante também adquire um considerável peso.

            A ESCOLA DE EDESSA: fundada pelo rei Abgar o Siríaco de Edessa, durante o primeiro século do Cristianismo, funcionou até o final do sexto século. Esta escola formou o grande filósofo assírio “Bardaison” (154 - 223 d.C.) que compilou 150 hinos siríacos, número idêntico ao dos salmos da Bíblia. Esta verdadeira universidade de humana foi administrada por Santo Afrém, o Siríaco, durante os últimos dez anos de vida deste último, sucedido por Rabule, Bispo de Edessa (435 d.C.) e depois por Iehibo (457 d.C.).

            UNIVERSIDADE DE NSEBIN: foi fundada por São Jacob na metade do terceiro século do Cristianismo e funcionou até o sétimo século. Santo Afrem, o Siríaco, completou seus estudos nesta escola; e, quando da morte do seu fundador São Jacob, bispo de Nsebin, assumiu por 38 anos ininterruptos a administração desta escola.

            Esta mesma escola foi administrada por Mar Narsai em 547 d.C. e pelo Grande Babi (627 d.C.) bem como por diversos outros renomados mestres.

            A ESCOLA DE SÃO GABRIEL: verdadeiramente uma universidade, foi fundada no século IV, mais precisamente em 394 d.C. e funciona até hoje próximo da cidade de Midiat em Tur Abdin, nas montanhas centrais da Assíria. Grandes estudiosos como Aksnoio, Abyeshu Suboyo (1318 d.C.) lá se formaram e foi uma fonte de autores, patriarcas, bispos, mestres e doutores. Muitos estudiosos de diversas partes do mundo para lá se dirigem para preparar suas pesquisas e teses de história, semântica, teologia, e, conta hoje aproximadamente 60 a 70 estudantes siríacos ou surianis.

            ESCOLA DE ANTIOQUIA: fundada no século IV, e que tinha como anexas duas outras escolas quais sejam das cidades de “Tell Ada” e “Gubo Baroio”. São João Crisóstomo completou seus estudos nesta universidade, e por ser um homem virtuoso e capaz, foi consagrado e enviado pelo nosso patriarca de Antioquia para ser o Patriarca de Constantinopla (Istambul - rum ortodoxo); depois dele, Nestor, também, formando nesta mesma escola, foi escolhido para sucedê-lo, mas, ambos, sendo siríacos (surianis), de origem, como era a maioria dos primeiros patriarcas em Roma, Egito e Constantinopla, não sendo, portanto, gregos de origem, foram depostos, aprisionados e exilados devido a intrigas e ciúmes do clero grego que dominava a Igreja de Constantinopla (Ironicamente, São João Crisóstomo, veio posteriormente a ser o patrono da Igreja de Constantinopla).

            O Cristianismo, sendo siríaco ou assírio na origem, produziu os primeiros patriarcas para as quatro grandes cátedras, quais sejam de Antioquia, Egito, Roma e Constantinopla ou Bizâncio, sempre escolhidos entre os virtuosos cristãos siríacos; e, pois, o próprio Cristo falava o siríaco e pregava essencialmente os valores da cultura siríaca…

            Nesta mesma universidade de Antioquia, formou-se o Grande Patriarca Isaac (349 d.C.), o Patriarca Paulo III (575 d.C.), e o grande autor e administrador da

mediante o confronto de suas posições, as Igrejas Católica, Protestante e Ortodoxa possam reencontrar a unidade na fé.

8. PATRIMÔNIO TEOLÓGICO-CULTURAL DA IGREJA SIRIAN ORTODOXA DE ANTIOQUIA.

 

            Quanto à história de sua teologia na Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, podemos dividi-la em três períodos que são similares ao apresentado por outras famílias ortodoxas:

            I. PERÍODO DAS ORIGENS (SÉCULOS V – VII);

            II. PERÍODO DO DESENVOLVIMENTO (SÉCULOS VIII – XIII);

            II. PERÍODO DA DECADÊNCIA (SÉCULOS XIV – XIX).

           

            “Somam-se às milhares escolas das vilas e cidades dos cristãos siríacos ou assírios, diversas universidades normalmente estabelecidas dentro dos limites do que chamamos de Assuristão, durante o período patriarcal, nos últimos vinte séculos do Cristianismo. Grandes homens, de alto nível cultural como médicos, professores, mestres ou educadores, filósofos, teólogos, autores de grandes trabalhos literários, tradutores, poetas, músicos, artistas, astrólogos e astrônomos se formaram nestas escolas, e delas destacamos”:

8.1. Escolas Teológicas da Antigüidade Cristã.

            ALEXANDRIA: no Egito, fundada por volta de 180 d.C., por Panteno, seguido por Clemente de Alexandria e Orígenes. Prevalece nessa Escola a metodologia platônica.

            ÁSIA MENOR: foi bastante florescente durante tempos, mas esgotou-se rapidamente e passa a se identificar com Irineu.

            ROMA: caracteriza-se, sobretudo pelo pragmatismo eclesiástico que dirige particularmente a atenção para as questões do rito e da disciplina.

            A ESCOLA DE CTESIFON: verdadeira universidade da época foi fundada próxima ao Rio Tigre no primeiro século do Cristianismo. Taciano ou Titiano o Assírio, da cidade de Hadiab (110 d.C.) tendo completado seus estudos nesta universidade, compilou seu livro mais famoso, o “Diatéssaron” (Quatro num só) ou “Diatesseron” (Os quatro evangelhos em siríaco), redigiu, também, outras dez epístolas de que temos notícia por referência e se perderam. Mas o seu “Diatesseron” permaneceu com ele e juntamente com seu filho, pregava cantando o conteúdo deste livro em Hadiab, Arbil, Nsebin, Edessa (Urfa), Palmíria (Tudmor), Alepo, Damasco, Antioquia, Atenas e finalmente em Roma onde foi martirizado. O “Diatesseron” foi traduzido do siríaco para o grego e praticado nas duas línguas em todo o mundo cristão.

            Dentre os teólogos influenciados pelo catolicismo, podemos recordar Melésio Pigas, um cretense que realizou seus estudos na Universidade de Pavia. Em 1590, foi nomeado patriarca de Alexandria. A formação católica não o impediu de protestar energicamente quando, em 1595, os ucranianos subscreveram a reunião com Roma. Então, escreveu um ensaio intitulado “Sobre o Primado do Papa”, em que conclamava os ucranianos a desfazerem o acordo com Roma. Em seu escrito, Pigas repete sem grande originalidade os argumentos tradicionais dos ortodoxos contra o primado romano e contra os pretensos erros dos latinos.

            Seguindo o exemplo de Pigas, outro teólogo, Máximo de Peloponeso, elaborou um “Enchiridion Contra o Cisma dos Papistas”.

            Entre os teólogos mais sensíveis à influência protestante, podemos recordar Cirilo Lucaris († 1638), fervoroso promotor do calvinismo na Grécia. Em 1629, publicou em Genebra o seu “Orientalis Ecclesiae Confessionem Christianae Fidei”, uma obra profundamente impregnada de calvinismo. O Sínodo de Constantinopla de 1638 condenou as suas doutrinas.

            Os desvios “catolicizantes” e “protestantizantes” não tardaram em provocar a reação de diversos teólogos, que, preocupados em salvaguardar a integridade da fé ortodoxa, marcaram seus escritos por uma forma fortemente polêmica.

            Entre os polemistas ortodoxos, podemos ressaltar Melésio Syrigos († 1667), cuja maior obra é intitulada “Confutação Ortodoxa dos Capítulos e das Questões da Confissão de Cirilo Lukaris, e Dositeu”, patriarca de Jerusalém († 1707), autor do “Enchiridion Contra os Erros de Calvino”.

VI. A ESCOLA DE KIEV (SÉCULOS XVII – XVIII).

            Enquanto a teologia da Diáspora se apagava lenta e fatalmente, o primeiro lugar no mundo da cultura ortodoxa passava para a Rússia, único país da Ortodoxia que conseguira furtar-se ao domínio turco. No século XVII, a Rússia torna-se o centro de gravidade da ortodoxia, sobretudo graças à escola de Kiev.

            Esta fora fundada por Pedro Moghila († 1647), que a estruturara pelo modelo das universidades dos jesuítas: língua latina e método escolástico. O seu texto oficial, “A Confissão Ortodoxa da Fé”, era calcado no esquema do catecismo de Pedro Canísio. E mesmo na liturgia freqüentemente eram imitadas as práticas católicas (G. Florovsky julgou muito severamente a orientação da escola de Kiev, acusando-a de “compromisso”, de “cripto-catolicismo romano”, de “barroquismo teológico”. Cf. Florovsky, “Westliche Einflüsse in der Russischer Theologie” em Procès-Verbaux du ler Congrès de Théologie Orthodoxe à Athènes, 29 nov. – 6 dez. 1936, Atenas, 1939, pp. 214 – 215; Puti Russkovo Bogoslovija (em russo), París, 1937, pp. 4ss.).

            A obra-prima de Moghila, “A Confissão Ortodoxa da Fé”, muito embora refletisse uma clara romanização da ortodoxia, gozou de elevadíssimo prestígio durante uns dois séculos. Sobre ela o patriarca de Moscou, Adriano († 1700), escreveu: “O reverendíssimo metropolita Pedro, dito Moghila, homem de grande inteligência e vasta erudição, elaborou esse livro inspirado por Deus... Tudo aquilo que corresponde ao juízo desse livro é indubitavelmente ortodoxo. Já aquilo que não concorda com ele, mas está em conflito, não faz parte da doutrina da nossa Igreja e, portanto, não merece ser escutado”.

            Durante todo o século XVIII, “A Confissão” foi classificada entre os Livros Simbólicos da Igreja Ortodoxa, sendo-lhe atribuída a mesma autoridade dos decretos dos primeiros concílios.

            A escola de Kiev produziu numerosos teólogos, entre os quais Lasar Baranovich († 1693) e Antônio Radivilovski († 1688).

VII. O RENASCIMENTO MODERNO (SÉCULO XIX – XX).

            Nos séculos, XIX e XX, a teologia ortodoxa se renova, sobretudo em duas nações, Grécia e Rússia. Neste último país, nem mesmo a revolução bolchevique, com todas as suas dolorosas conseqüências para a Igreja, conseguiu impedir o grande florescimento teológico em curso no início do nosso século, ainda que tenha obrigado quase todos os mais insignes cultores da ciência sagrada a buscarem refúgio no exterior, pois eles reconstituíram em Paris e Nova York dois centros de teologia ortodoxa dotados de uma prodigiosa vitalidade.

            Podemos dividir a história contemporânea da teologia ortodoxa em três partes:

RUSSA;

GREGA;

DIÁSPORA.

           

            Vamos examiná-la uma por uma, começando pela Russa.

            a) O Renascimento Russo. – No início do século XIX, o epicentro da teologia ortodoxa desloca-se de Kiev para Moscou. A faculdade de teologia da capital começa a ascender durante o patriarcado de Filarete Drozdov († 1867).

            As principais causas do renascimento foram duas: um maior contato com as fontes bíblicas e patrísticas (em 1812, foi fundada a Sociedade Bíblica Russa) e a introdução da língua russa em lugar do latim. Com o desaparecimento do latim, decai também a influência escolástica.

            Os maiores artífices da renovação antes da Revolução Russa foram quatro: o metropolita Macário, Khomiakov, Svetlov e Soloviev.

            O METROPOLITA MACÁCIO (O SEU NOME DE NASCIMENTO ERA MIKHAIL PERROVIC BULGAKOV) é o autor de uma “História da Igreja Russa” em doze volumes e de uma “Teologia Dogmática Ortodoxa”, sendo que esta última chegou a ser Profeta” (1921); “Estudos sobre os LXX” (1926); “Introdução ao Antigo Testamento” (1937); “Comentário a Isaías” (1956).

            PANAGHIOTIS TREMBELAS, talento multiforme e fecundo não negligenciou nenhum campo do saber teológico, da apologética à teologia fundamental, da exegese à liturgia, da moral à dogmática. Neste último campo, sua principal obra é “A Dogmática da Igreja Católica Ortodoxa”, em três volumes, publicada entre 1959 e 1961. Nela, o autor se propõe a dar a conhecer o espírito dos Ss. Padres; na realidade, entre suas qualidades, a sua dogmática tem a qualidade de ser verdadeiramente patrística. Um mérito de Trembelas foi ter renovado a exposição da teologia dogmática grega, aprofundada de há muito pelos trabalhos de Androustsos, os quais, porém, já se encontravam um pouco ultrapassados.

             João Karmiris é um teólogo que se formou no Ocidente, nas universidades de Berlim e Bonn, tendo começado a conquistar fama nos ambientes internacionais com a tradução neo-helênica da Summa Theologiae de S. Tomás de Aquino. São bastante numerosas suas publicações no campo histórico-dogmático. A sua obra-prima é “A Tradição Histórica e Simbólica da Igreja Católica Ortodoxa”, em dois volumes, publicada respectivamente em 1952 e 1953. Seus estudos “esclareceram a posição da Igreja Ortodoxa diante das várias tentativas dos Reformadores e fortaleceram o zelo e a altivez dos ortodoxos”.

            NIKOS A. NISSIOTIS (nascido em Atenas em 1925) está exercendo considerável influência especialmente nos ambientes ecumênicos. Em 1980, exercia o cargo de diretor do Instituto Ecumênico de Bossey (Suíça). Sua atividade teológica inspira-se constantemente nas exigências de sua função: o estudo dos problemas ecumênicos mais importantes do momento. Durante e depois do Concílio Vaticano II, granjeou apreço por suas penetrantes análises dos documentos conciliares desde o ponto de vista ortodoxo. Sua principal obra intitula-se “O Problema da Fé em Kierkegaard e no Existencialismo Moderno”.

            E assim, neste primeiro momento, concluímos nossa visão panorâmica da história da teologia oriental bizantina e russa. Breve síntese que, no entanto, não nos impediu de constatar como essa história é rica e variada. É bem verdade que ela teve momentos de pausa e declínio, como qualquer outra história, mas também teve longos períodos de grande esplendor, principalmente o período patrístico e neopatrístico  e, depois, o período moderno e contemporâneo.

            Neste século, a teologia ortodoxa registrou um reflorescimento semelhante ao das teologias irmãs, a católica e a protestante. Seus Bulgakov, Berdiaev, Dlorovsky e Lossky não são menores do que os teólogos Rahner, Congar, Guardini, de Lubac e Chenu.

            Esse é um fato bastante prometedor para o futuro da Cristandade. Faz brotar  a   esperança  de  que,  por  meio  do  diálogo  entre  os  grandes  teólogos   e

            c) O Renascimento Grego. – O ponto de partida do renascimento da teologia ortodoxa na Grécia foi à fundação da Universidade de Atenas, poucos anos depois da expulsão dos turcos. A Faculdade de Teologia ocupava o lugar de honra entre as quatro faculdades com que teve início a nova universidade. Num primeiro momento, a principal função da faculdade foi a formação do clero e dos mestres de religião no novo Estado. Em seguida, contudo, passou-se a cuidar sempre mais da pesquisa científica. Essa orientação favoreceu consideravelmente o despertar da ciência teológica. Já no século XIX surgiram alguns autores de valor, como Constantino Kontogonis e Nicola Damalas. Este último é autor de um livro, “Princípios Científicos e Eclesiásticos da Teologia Ortodoxa”, que ainda hoje goza de grande fama.

            Mas foi, sobretudo, neste século que a Grécia produziu uma série respeitável de grandes teólogos. O primeiro de todos foi Christos Antroutsos († 1935), do qual Bratsiotis escreveu: “Em minha opinião e interpretando também a opinião de todos os cientistas imparciais, posso assegurar que nossa escola teológica ainda não viu um teólogo tão capaz e genial e nunca ouviu um mestre tão metódico e atraente como ele” (Cf. Citado por P. Dumont, “La Teologia Grega Odierna” em Oriente Cristiano, 1966, n. 1, pp. 36 – 37). Suas inúmeras obras teológicas e a qualidade de suas monografias, estudos e discursos científicos constituem a demonstração mais eloqüente da fecundidade de seu gênio. No “Simbolismo do Ponto de Vista Ortodoxo”, uma de suas obras mais originais, através de um penetrante estudo da Sagrada Escritura e dos Padres, ele procura identificar e descrever as diferenças entre as principais Igrejas e precisar o pensamento da Igreja Ortodoxa.

            Outros teólogos importantes são Amilcas Alivizatos, Panaghiotis Bratsiotis, Panaghiotis Trembelas, João Karminis e Nikos Nissiotis.

            AMILCAS ALIVIZATOS, além de teólogo, é também um personagem bem conhecido tanto na Grécia como no resto da Europa. Ocuparam numerosos e variados cargos nos governos do seu país. Teve um papel determinante na preparação da Carta Constitucional de 1923. Participou ativamente de muitas assembléias ecumênicas. Suas maiores obras são: “A Continuidade Ininterrupta da Igreja Ortodoxa Grega com a Igreja Indivisa” (1934); “Posição Contemporânea da Teologia Ortodoxa” (1931); “O Culto na Igreja Ortodoxa” (1952). Quanto ao pensamento, “Alivizatos é o descendente espiritual da tradição patrística liberal dos tempos em que floresce o cristianismo helênico, da Ortodoxia e do espírito ecumênico da Igreja antiga”.

            PANAGHIOTIS BRATSIOTIS é eminente, sobretudo como exegeta. De 1929 a 1960, ocupou a cátedra da Introdução e Interpretação do Antigo Testamento. Suas principais obras são: “O Judaísmo Palestino na Palestina” (1920); “João Batista como

             

premiada pela Academia de Ciência de Moscou. Ela é considerada por N. Glubokovski, um historiador da teologia russa, como “uma grandiosa tentativa de classificação científica do material teológico acumulado no passado”. A obra foi adotada não só como manual para a formação de padres ortodoxos na Rússia, mas também como critério de ortodoxia. Com efeito, as posições de Macário correspondem exatamente às do Santo Sínodo de Moscou no rígido conservadorismo, na interpretação literal da Escritura, no tom apologético e numa forte intolerância para com as outras confissões. Por esse motivo, além da escassa originalidade da obra, os teólogos russos deste século julgam-na bem menos favoravelmente do que seus colegas do século passado.

            Enquanto o METROPOLITA MACÁCIO é o expoente máximo da teologia “oficial”, ALEXIS KHOMIAKOV († 1860) é o teólogo mais representativo do movimento eslavófilo. Esse movimento nasceu como reação contra a ocidentalização da intelectualidade. Para combater esta ocidentalização os “eslavófilos” recorriam ao velho mito do messianismo russo e ao pan-eslavismo religioso, cujas raízes haviam penetrado na consciência nacional desde os tempos dos grandes tzares do século XVI.

            Teórico e teólogo do “eslavofilismo”, KHOMIAKOV afirma que a antropologia, a sociologia e a teologia orientais estão separadas do “racionalismo cristão” do Ocidente por uma oposição radical. Contra o caráter jurídico dos latinos, exalta a Sobornast’ eslava. A nova eclesiologia de que ele é fundador baseia-se toda na idéia da comunidade unânime de todos os fiéis, isto é, a Sobornost’. Em sua opinião, é nela que reside a unidade e a infabilidade da Igreja. Conseqüentemente, não pode haver nenhuma diferença essencial entre Igreja docente e Igreja discente, entre hierarquia e povo: toda decisão da hierarquia, para tornar-se autoridade e infalível, deve ser aceita por todo o povo. Assim, segundo Khomiakov, viria a realizar-se na Igreja Ortodoxa aquela perfeita harmonia entre liberdade e união que não seria possível no “catolicismo” nem no “protestantismo”; no primeiro, porque a união suprime a liberdade; no segundo, porque a liberdade suprime a união. No século passado, essas teorias de Khomiakov foram duramente criticadas e condenadas pela hierarquia ortodoxa e seu autor foi asperamente censurado. A publicação de suas obras só foi autorizada vinte anos depois de sua morte. Hoje, porém, a teologia de Khomiakov é muito difundida entre os teólogos ortodoxos.

            PAVEL I. SVETLOV († 1942) foi quem mais contribuiu para consolidar e difundir as doutrinas de Khomiakov. Suas obras mais importantes são: “A Doutrina Cristã Apresentada em Forma Apologética” e “A Idéia do Reino de Deus no seu Significado Relativo à Concepção Cristã do Mundo”. Ele assume uma posição conciliatória nos pontos controversos entre ortodoxos e latinos, como por exemplo, na questão da processão do Espírito Santo, em que ele não encontra nenhuma diferença substancial entre as doutrinas grega e latina, e na questão da Imaculada Conceição. Svetlov critica particularmente os teólogos ortodoxos que consideram que as confissões não-ortodoxas não pertencem à Igreja de Cristo. Contra essa tese, afirma que “as Igrejas Oriental e Ocidental não são dois corpos completamente separados um do outro e mutuamente estranhos, mas simplesmente partes do único e verdadeiro Corpo de Cristo: a Igreja universal; ambas as comunidades cristas estão da mesma forma unidas a Cristo através da sucessão apostólica, da verdadeira fé e dos sacramentos. Portanto, em conseqüência da aparente divisão, a Igreja universal parece subsistir em dois corpos, enquanto que de fato é uma só. O obstáculo à sua reunião é constituído pela idéia errada, profundamente radicada em ambas as partes da cristandade, de que depois da divisão só uma parte se identifique com o todo, com a Igreja universal... As diferenças entre as duas Igrejas não são de substância, mas foram aumentadas pela inimizade e pela polêmica; freqüentemente, são apenas aparentes”.

            SOLOVIEV († 1900), além de grande filósofo, foi um dos mais válidos representantes do renascimento teológico ortodoxo. Sua obra mais importante são as “Lições sobre a Divino-humanidade” um profundo ensaio cristológico no qual a Encarnação é concebida como um evento que tem lugar no próprio coração do ser, sendo o seu evento interior, e depois, por extensão, se amplia a tudo o que é humano, colocando a história sob o signo da “cristificação” universal. De tal modo, o Cristo-Deus-Homem se cumpre no Cristo-Deus-Humanidade. Em harmonia com esse “teandrismo”, Soloviev elaborou uma “sofiologia” que, através das malhas do idealismo alemão e de um misticismo por vezes equívoco, tenta reler as afirmações da Bíblia e de Orígenes sobre a Sabedoria, que ele vê sair da Trindade para criar o mundo, divinizá-lo e reintegrá-lo em sua fonte. Florensky e Bulgakov retomariam depois por sua conta os elementos essenciais dessa teoria, esforçando-se por libertá-la dos seus elementos cabalísticos e gnósticos.

            b) Teologia Ortodoxa da Segunda Diáspora. – A Revolução Bolchevique eclodiu no momento em que a teologia russa estava para atingir o ápice, por obra de Bulgakov, Florovsky, Lossky, Berdiaev, Zernov e outros. O triunfo do comunismo obrigou todos esses jovens a abandonarem a Rússia, passando a residir em nações ocidentais, na Tchecoslováquia, França, Inglaterra e Estados Unidos. Mas sua dispersão não marcou o fim da teologia ortodoxa russa. Superando enormes dificuldades, eles se reorganizaram e, em Paris e Nova York; fundaram dois centros de estudos teológicos, o Instituto de S. Sérgio e o Seminário de S. Vladimir, que não tentaram a conquistar fama internacional. Ao instituto de Paris ligaram seus nomes Bulgakov, Lossky, Afanassieff, Florensky e Evdokimov. Ao seminário de Nova York emprestaram o prestígio de sua obra Florovsky, Schmemann e Meyendorff.

            Berdiaev e Zernov, porém, permaneceram isolados, desenvolvendo suas atividades fora daquelas instituições.

            Aqui, neste primeiro fascículo, nos limitaremos a examinar brevemente a vida e obra de duas maiores figuras da teologia ortodoxa russa, Berdiaev e Zernov.

NIKOLAI BERDIAEV († 1948): é o mais célebre dos convertidos russos deste século: passou do positivismo e do ateísmo da intelectualidade à fé ortodoxa dos seus pais. Com sua forte personalidade e com suas obras originais, contribuiu mais do que qualquer outro para o conhecimento do pensamento religioso russo além das fronteiras de sua pátria e em ambientes habitualmente fechados à religião. Durante o exílio, tomou parte ativa na vida da Igreja Ortodoxa. Participou também das conferencias do Movimento Ecumênico, mas fazendo questão de frisar que não era representante oficial de sua Igreja, porque queria conservar o direito de julgar e criticar a ação dos seus chefes desde o ponto de vista de um pensador independente. Quanto ao seu pensamento, uma das características que o distinguem é a desconfiança em relação à razão, tanto em filosofia como em teologia. Segundo Berdiaev, a razão despreza o aspecto misterioso da vida e do universo. “O mistério”, afirma ele “permite sempre, sendo inclusive acentuado pelo conhecimento. Este, com efeito, só resolve os falsos mistérios criados pela ignorância. Mas existem outros mistérios que se nos apresentam quando alcançamos o fundo do conhecimento. Deus é um mistério e o conhecimento de Deus é comunicado no mistério (TEOLOGIA “APOFÁTICA”). A teologia raciona é uma falsa teologia, porque nega os mistérios que envolvem Deus.

NIKOLAI ZERNOV (NASCIDO EM 1898): deixou a Rússia logo depois da Revolução. Inicialmente, se estabeleceu na Iugoslávia, onde foi laureado em teologia em 1925. Depois passou para a Universidade de Oxford, onde, depois de se ter doutorado em filosofia, foi nomeado professor de cultura ortodoxa em 1947. Escreveu muitas obras de caráter histórico e eclesiástico, com as quais contribuiu bastante para o conhecimento da teologia russa no mundo anglo-saxão. Entre as suas obras em inglês, podemos recomendar: The Church of the Eastern Christians (Londres, 1942); The Russians and their Church (idem, 1945); The Reintegration of the Church (idem, 1952) e Easterns Christendom (idem, 1962). 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Progress