COMUNIDADE ORTODOXA SANTA CATARINA DE ALEXANDRIA
IGREJA SIRIAN ORTODOXA DE ANTIOQUIA MISSIONÁRIA DO BRASIL

A Metanóia

Metanóia é uma palavra grega que significa "arrependimento", "conversão". Arrependimento e

conversão que nos abrem as portas da Graça de Deus, a Graça que nos dá acesso ao caminho da

santidade.

No velho e novo testamento, duas palavras são usadas para expressar arrependimento. No Velho

Testamento, as palavras são nicham e shubh. Nicham tem como significado estar sentido, ser

movido à piedade, ou arrepender-se dos erros; é freqüentemente usada quando trata de uma

mudança ou possível mudança nos planos de Deus (Gn 6:6,7; Ex 32:12,14; Dt 32:36). Essa palavra

também é usada para descrever a tristeza pelo pecado em seres humanos (Jz 21:6,15; Jó 42:6; Jer

8:6). Porém, a forma mais encontrada é a palavra shubh, que significa voltar atrás, ir na direção

oposta. Isso realça o fato de que o arrependimento significa uma mudança de direção, do caminho

errado para o caminho certo; significa abandonar o pecado (1Rs 8:35), a iniqüidade (Jó 36:10), a

maldade e os maus caminhos (Ne 9:35).

No Novo Testamento, as palavras empregadas são metanoia e epistrepho. Ambas as palavras são

utilizadas na Septuaginta para traduzir nicham e shubh, respectivamente. Hoekema afirma que não é

possível traçar uma linha divisória entre ambas. Geralmente, metanoia parece enfatizar a mudança

interior envolvida no arrependimento, enquanto epistrepho realça a mudança na vida exterior que

implementa e expressa a mudança interior.

A Metanóia ajuda-nos a receber o dom das lágrimas, de que fala São Simeão: "É impossível limpar

uma veste suja na ausência de água e, sem lágrimas, é ainda mais impossível limpar e purificar a

alma das suas manchas e impurezas". "O arrependimento faz jorrar lágrimas das profundezas da

alma: as lágrimas purificam o coração e fazem desaparecer os grandes pecados".

Metanóia é, também, o nome dado a dois gestos rituais transmitidos pela Santa Tradição: a

"pequena Metanóia", que é o gesto que fazemos diante de um Ícone, antes de o beijarmos, ou de um

Bispo, antes de lhe pedirmos a bênção; a "grande Metanóia", que é a prostração que fazemos no

"grande perdão", nas nossas orações privadas ou durante o ofício da Santa Eucaristia.

Com o nome de metanóia o Evangelho designa uma total mudança interior, uma conversão radical,

uma transformação profunda da mente e do coração.

A santidade é conseqüência e fruto da metanóia. Jesus inicia seu ministério público convidando

justamente à metanóia: “Convertei-vos (metanoeite) e crede na Boa Nova”. Como vemos, esta

expressão designa muito mais que uma mera “mudança de mentalidade”, designa uma conversão

total da pessoa, uma profunda transformação interior. Quer dizer, não se trata só de um distinto

modo de pensar em nível intelectual, mas da revisão à luz dos evangélicos das próprias convicções

vitais. A metanóia é uma mudança na mente e no coração, é a transformação radical que alcança o

ser humano em sua realidade mais profunda, permitindo-lhe viver uma coerência cada vez maior

entre as Leis do Criador e a vida diária. A metanóia leva a viver a vida ativa segundo o desígnio

divino.

Esta progressiva transformação interior cujo horizonte é a plena comunhão com Cristo não é

somente uma obra humana: É sobre tudo uma obra do Espírito Santo em nós. A Alma do homem

lhe leva a mudar o interior, transformando o coração de pedra em um coração de carne.

Portanto, a perseverança na oração é fundamental: quem não ora, ora mal ou ora pouco,

dificilmente se converte. Cristo não adverte que se deve vigiar e orar para não cair em tentação? A

oração perseverante é um meio fundamental para permanecer em comunhão com Cristo e, a partir

dessa permanência, poder desdobrar-se dando fruto abundante de conversão e santidade.

Este e outros momentos fortes de oração são indispensáveis, pois são momentos privilegiados de

encontro com Cristo nos quais se reflete e interioriza a palavra de Deus e os ensinamentos contidos

nos Evangelhos.

É importante também perseverar no exercício diário do exame de consciência. Também este é um

importantíssimo instrumento de transformação. É muito bom aplicar o exame de consciência

particular no empenho de despojar-se de algum vício específico e revestir-se da virtude contrária.

A metanóia exige um esforço perseverante. É necessário um verdadeiro combate espiritual para

alcançá-la. Percebo que a metanóia implica num esforço sério e constante de minha parte? Sou

consciente de que tenho que rechaçar radicalmente o pecado despojando-me de tudo o que é

obstáculo para minha própria conversão? O que vou fazer? Que meios concretos porei em meu

combate espiritual?

A meta da conversão é a santidade, que não é outra coisa que ser “outros Cristos”, configurar-se

com Ele. Deve-se chegar a repetir com o apóstolo São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo

que vive em mim”.

Sabe-se que o esforço pessoal é necessário, mas não suficiente para alcançar a conversão. Por isso,

o próprio Cristo oferece a graça que se necessita de uma maneira muito especial: nos sacramentos.

Deve-se procurar continuamente a graça do Senhor nos sacramentos e nutrir-se e fortalecer-se ainda

mais da graça sacramental.

O encontro com Cristo muda a existência de uma pessoa, como ensina a vicissitude de Zaqueu.

Assim aconteceu também aos pecadores que cruzaram com Jesus nos seus caminhos. Na cruz há um

extremo ato de perdão e de esperança dado ao malfeitor, que faz a sua Metanóia quando chega à

fronteira última entre a vida e a morte, e diz ao seu companheiro: "Quanto a nós é justo, porque

recebemos o que merecemos" (Lc 23, 41). A ele que implora: "Lembra-Te de mim, quando vieres

no Teu Reino", Jesus responde: "Eu te garanto, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso" (cf. ibid.,

vv. 42-43). Deste modo, a missão terrena de Cristo iniciada com o apelo a converter-se para entrar

no reino de Deus, conclui-se com uma conversão e um ingresso no seu reino.

Também a missão dos Apóstolos começou com um premente apelo à conversão. Aos ouvintes do

seu primeiro discurso, que sentiam o coração trespassado e pediam com anseio: "Que devemos

fazer?". Pedro respondeu: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus

Cristo, para o perdão dos pecados; depois recebereis do Pai o dom do Espírito Santo" (Act 2, 37-

38). Esta resposta de Pedro foi acolhida prontamente: "cerca de três mil pessoas" converteram-se

nesse dia (cf. ibid., v. 41). Depois da cura milagrosa de um homem, coxo de nascença, Pedro

renovou a sua exortação. Recordou aos habitantes de Jerusalém o horrendo pecado que tinham

cometido: "Vós, porém, renegastes o Santo e o Justo... matastes o Autor da vida" (Act 3, 14-15);

entretanto atenuou-lhes a culpabilidade, dizendo: "Apesar disso, meus irmãos, sei que agistes por

ignorância" (Ibid., v. 17); chamou-os depois à conversão (cf. 3, 19) e deu-lhes uma imensa

esperança: "Deus enviou-O em primeiro lugar a vós, para vos abençoar e para que cada um de vós

se converta das suas maldades" (3, 26).

De igual modo, o Apóstolo Paulo pregava a conversão. Di-lo no seu discurso ao rei Agripa,

descrevendo assim o próprio apostolado: a todos, "vivendo da maneira que corresponde a essa

conversão, anunciei o arrependimento e a conversão... também aos pagãos" (Act 26, 20; cf. 1 Ts 1,

9-10). Paulo ensinava que "a bondade de Deus (nos) convida à conversão" (Rm 2, 4). No

Apocalipse é Cristo mesmo que exorta várias vezes à conversão. Inspirada pelo amor (cf. Ap 3, 19),

a exortação é vigorosa e manifesta toda a urgência da conversão (cf. Ap 2, 5.16.21-22; 3, 3-l9), mas

é acompanhada de promessas maravilhosas de intimidade com o Salvador (cf. 3, 20-21).

A todos os pecadores, portanto, está sempre aberta uma porta de esperança. "O homem não é

deixado sozinho a tentar, de mil maneiras e muitas vezes frustradas, uma subida impossível ao céu:

existe um tabernáculo de glória, que é a pessoa santíssima de Jesus, o Senhor, onde o divino e o

humano se encontram num abraço que nunca poderá ser desfeito: o Verbo fez-Se carne, em tudo

semelhante a nós, exceto no pecado. Ele derrama a divindade no coração doente da humanidade e,

infundindo-lhe o Espírito do Pai, torna-a capaz de tornar-se Deus pela graça" (Orientale lumen, 15).

 



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